domingo, 30 de março de 2008

Tantas alvoradas já, desde aquele dia amanhecido a sangue de galinha, que me falha a memória, amarelecida pelo gastar dos anos. O meu corpo, esse, contínua impecável, regularmente desmontado e oleado com um desvelo tocante, por um par de mãos progressivamente gasto também, mas sempre com o mesmo carinho. Estas são as mãos que sempre desejei me possuissem e consola-me saber que ficaremos juntos para sempre, mesmo depois das ossadas dele serem pó, naquele imponente jazigo de família.

Cheguei aqui em muito mau estado, com a auto-estima numa lástima. Isto de matar um morto e escavacar uma pedra tumular destabiliza qualquer revólver! De tal forma que lembro apenas uns quantos flashes desse período, o resto escutei aqui, nas tertúlias que preenchem as tardes soalheiras. Consta que andei perdida algum tempo, na clandestinidade. Resgatada, fui etiquetada, a minha proveniência conferida e subi a leilão na Sotheby´s, parte de um espólio do qual não guardo memória.

Do que lembro bem é daquele rosto severo de olhos mansos deleitados sobre mim, as mãos possantes, uma segurando o catálogo e a outra um pingalim, que elevava sempre que outra licitação se ouvia. Soube imediatamente que estavamos destinados e que nunca me faria disparar sobre vivalma. Tem-me aqui desde esse dia, nesta espécie de altar a Antero de Quental, numa caixa de vidro e madeira ricamente adornada. Repouso assim, nesta cama de veludo carmim, qual princesa adormecida numa redoma, ao lado de dois pedaços de granito que reconheço bem. Para uma objectora de consciência, a vida não me podia ter corrido melhor, sobretudo hoje, que soube o que o destino me reservava, quando veio o advogado conferir os termos do novo testamento. Eu e aquele livro quase desfeito, que chegou há umas semanas do alfarrabista do Bairro Alto. Não sei quem seja, nem quem o terá escrito, mas teremos toda a eternidade para pôr a conversa em dia, espero que ele não se desmanche antes disso!

Se se cruzarem um dia destes com o Magno, pobre coitado sem alma nem jeito de piedade, digam-lhe apenas que sou feliz.

FIM

7 comentários:

Maria das Mercês disse...

Magistral, Susana, agarraste muito bem os nossos desvarios, mantiveste a alma da Nikita e deste-lhe um fim tocante e coeso!

Renata Correia Botelho disse...

Uau, Susana!!! Que grande, grande final!

Meteorologista amador disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
johnsilva disse...

Muito, muito bom este final!

Susana disse...

Muito obrigada aos meus colegas, isto saiu-me assim de rajada e nem dei tempo de pousar, publiquei logo e já tarde e a más horas... Fico contente que tenham gostado, mais do que começar um conto, isto acusou-me a responsabilidade de o terminar.
Confesso-vos é que me estou a coçar por causa do comentário eliminado... chegue-se à frente quem vem por bem, ou por mal, tanto faz, aqui não censuramos...

johnsilva disse...

O comentário eliminado era meu. Coloquei-o a partir de um computador alheio e só depois é que reparei que havia um outro utilizador com sessão iniciada nesse PC. Por isso, apaguei o comentário e depois reenviei-o a partir do meu computador.

PS – Os melhores textos costumam ser mesmo os que saem de rajada :)

Susana disse...

ah! curiosidade satisfeita, gracias John!
Então a todos vemo-nos 6ª, no lugar do costume, lol!