terça-feira, 25 de março de 2008

Eu bem vi quando o fulano pegou nela. Virou, revirou, fez pontaria, até a acariciou, o demente! E o comerciante a sorrir, enlevado com a ideia da venda, só vê dinheiro, aquele. E levou-a. Que raiva!
Já não é como no meu tempo. Já nada é como era.
A Nikita sempre foi especial. Não consigo dizer bem porquê, mas tinha aquele brilho que só quem é especial pode ter. É verdade que não faz muito sentido ser tão idealista; mas a paixão com que defendia as suas crenças — fruto de muita juventude, claro! —, aquela fusão de atrevimento e timidez, sim senhores, impressionava. Mesmo o Magno, com aquele ar já-vi-tudo-e-ninguém-me-apanha, se deixou encantar. Como o compreendo.
Mas no meu tempo era outra coisa. As pessoas que nos usavam não precisavam das últimas descobertas da tecnologia para cumprirem os objectivos. Era um tempo de garra, de perícia. Ganhava quem tinha olho. Acertar no alvo era um exercício de inteligência, de preparação física e mental. E de respeito.
Podem dizer que já estou velho, que estou sempre a lamuriar-me, mas eu tenho razão. E a Nikita vai fazer-nos muita falta. Gostava de receber notícias dela. Não pela televisão, obviamente, que aquilo é só desgraças. Parecem uns cães sarnentos. No meu tempo… pronto, eu calo-me. Sei que divago. E agora, quem me vai ouvir?


Acho que não me apresentei. Chamo-me Benedito e sou uma besta. Usada.

1 comentário:

Susana disse...

Muito giro, Maria! Até agora cada uma de nós escolheu ser uma arma, tu vais logo escolhendo uma besta?! ahahahaha!
Gostei do estilo coloquial, que utilizas tão bem.
Que irás fazer com todo este arsenal bélico, Mário? Dá-lhe como um canhão!