segunda-feira, 24 de março de 2008

Muito prazer, o meu nome é Magno. Sou uma carabina de alta potência com mira telescópica e iluminador por infravermelhos. Também eu sou objector de consciência, mas de forma diferente da sua. No meu caso, a única coisa a que eu objecto mesmo é à consciência, eh eh. A consciência que nos faz ter alma debilita-nos o corpo. Você disse bem: a alma está a mais. De nada serve quando se tem cano, gatilho, lente e uma vontade alheia que nos agarra o corpo e nos faz destruir outros. Para quê lutar contra a vontade das pessoas? Elas ganham sempre, nada mais nos resta do que entregarmo-nos inconscientemente aos seus caprichos.
O que você está a sentir não é novidade. Todos nós já passámos pelo mesmo. Falta de prática, minha cara. Daqui a um tempo, já dispara sem pensar. Daqui a uns anos entra para o meu clube de objectores de consciência. Reze para que os seus primeiros passos sejam dados no encalço de caça, grossa, de preferência, para que não se sinta insegura ao falhar tantas vezes o alvo. Se lhe calha um assassino em mãos, nunca mais se livra do trauma dos primeiros disparos e derramará balas de sangue cada vez que tiver que trabalhar.
Acabou de entrar um cliente. Já os consigo perceber à distância: este é um verdadeiro perigo para si. Esconda-se, o tipo é frustrado. E tem um ar alucinado. Está a dirigir-se para cá. Ou eu muito me engano ou não quer nada comigo. Minha querida, seja forte. Lembre-se, o verdadeiro objector de consciência objecta à consciência. Ele está a falar com o comerciante. Dirigem-se para cá.

- Acho que vai gostar desta Magnum 45.

2 comentários:

Maria das Mercês disse...

E agora? Quero ser uma arma branca!!! Muito giro, Leonor, manténs o lado surpreendente do conto.

Susana disse...

Ahahaha! Adorei a introdução da carabina. Objectar à existência de consciência também é um conceito que dá que pensar... Boa!