domingo, 23 de março de 2008

Gosto que me chamem Nikita. Tal como ela, fui programada para matar e não passa pela cabeça de alguém que me recuse a fazê-lo. Até agora tenho-me esquivado sem levantar demasiadas suspeitas, mas não tardará que me dêem conta do canastro, não posso sempre desculpar-me com o gatilho encravado.
Reparem, estraçalhar garrafas, latas ou mesmo alvos é comigo, dou um jeito à pontaria e não falho! Sou cobiçada pela minha musculatura física e porte impecável, mas não para qualquer par de mãos, a menos que queiram apanhar um susto, esse sim, de morte.
Suponho que o meu problema sejam estes pruridos que me maçam a consciência que era suposto não ter. A minha alma está aqui a mais. Não devia sentir misericórdia nem respeito pela vida, ser 100% eficaz sem hesitações, mas assim que me põem alguém vivo à frente, sai-me o tiro pela culatra.
Sei que não vou conseguir mudar o mundo nem a cabeça destes homens brutais que esperam que execute sem pensar. O meu destino está marcado, haverá algures uma qualquer sentença da qual não me conseguirei inocentar, mas até esse dia chegar, partilharei convosco as minhas memórias.


O meu nome é Nikita. Sou uma Magnum 45 objectora de consciência.

3 comentários:

Maria das Mercês disse...

Susana, que ideia tão original, uma arma objectora de consciência! Gosto da ideia do/a protagonista deste conto não ser humano!

leonor disse...

Gostei muito. Ideia original, como disse a Maria, e bem sustentada nestas primeiras linhas. Só não sei como dar continuidade a isso - preciso de algum tempo para me pôr na pele de uma arma e pensar de forma balística, sem disparar na direcção errada. Bom tiro, Su!

Susana disse...

Amigas, já andava farta de pessoas... relações, ralações, tropeções, enfim! Porque não ver o mundo por um cano? Pode ser que nos traga uma (sempre necessária) perspectiva diferente... Boa sorte!