quarta-feira, 12 de março de 2008


O autocarro esgueirou-se bamboleante pelo trôpego caminho .

“Quando os autocarros se vão, só resta um cheiro a pneus e gasolina, uma nuvem de fumo e solidão. Foi também para isso que vim. Para me despedir por uma última vez dum autocarro. Quando era pequena gostava de ver os autocarros a partir. Ficava a olhar para aquele corpo de paquiderme a encolher até parecer uma formiga e dizia-lhe adeus até se sumir na próxima curva.
Agora quero ver a vida deixar-me e sumir-se na curva da morte. Sinto um nó na garganta, uma angústia indizível e uma voz surda que me grita: apanha-a, apanha-a. É tarde de mais, mas não lamento. Sei exactamente o que estou a fazer aqui.”



- Policia?… Queria participar o desaparecimento do meu marido…Se desapareceu? Foi o que eu disse, não foi? Que-ro par-ti-ci-par o de-sa…pois pergunte mas não faça perguntas estúpidas…quando desapareceu não sei mas não veio jantar…como não é razão para chamar a policia? O senhor nem me deixa falar…ele já não vem jantar há três dias …nem jantar, nem almoçar, nem podar os hibiscos…pobres hibiscos que estão a ficar todos esgrouviados…há quanto tempo já lhe andava a pedir para me tratar dos hibiscos…



Luísa olhou em volta. Estava tudo exactamente como se lembrava. Há mais de vinte anos não punha ali os pés. Provavelmente mais ninguém pusera ali os pés. Só o velho marco geodésico estava mais velho, atormentado pelas intempéries. Havia ali uma encruzilhada perfeita. Ela plantou-se ao centro, pousou a caixa no chão poeirento. Fechou os olhos. Esteve assim uns minutos. Talvez rezasse.

“ Já não rezo há muitos anos, não como me ensinaram na catequese. Fico assim a não pensar e não pensando inclino-me respeitosamente perante o mistério da criação.”

Levou as mãos à parte de trás do pescoço e quando as devolveu à frente, trazia um fiozinho de ouro que segurava uma medalha minúscula. Nossa Senhora da Paz Lembrança da primeira comunhão que colocou também no chão. À sua volta, nos campos que ladeavam os quatro caminhos, pernilongas plantas infestantes agitavam-se em espasmos, excêntrica dança do ventre que o vento se comprazia em acompanhar com uma triste melodia de dois desajeitados tons.
Depois tirou os óculos. E quis repetir uma última vez um gesto maquinal que praticava há anos.. Bafejou as lentes e limpou-as com a ponta do camiseiro. A seguir esticou os braços com os óculos nas pontas dos dedos para averiguar da eficácia da limpeza. E foi então que, através das lentes graduadas até à exaustão, o viu.

2 comentários:

Maria das Mercês disse...

Acabei de o ler. Fiquei espantada, como geralmente fico com os teus textos, pelas reviravoltas que dão, pela "frescura" que trazem. Ainda bem, Mário, que me causas espanto (mesmo que por vezes seja um espanto indignado!).

Susana disse...

Belo avanço que deste, Mário. E adensas a trama, introduzindo uma história paralela. Vamos ver para onde é que isto vai...