segunda-feira, 10 de março de 2008

Não era seu o gosto pela música da moda, pelas roupas da moda, pelos penteados, objectos e palavras da moda. Discreta e sensível, mantivera-se intacta na limpidez de um passado anterior a todas as perdas que tinha sofrido, na lealdade às palavras dos diálogos antigos – diálogos travados com gente morta, mas para sempre vivendo na respiração literária com que oxigenava os dias tristes, passados no escritório da fábrica a administrar os primeiros-socorros da contabilidade exacta às feridas tecnológicas da indústria farmacêutica. Ainda era fiel ao velho porta-chaves de madeira com iniciais gravadas que o avô lhe fizera num dia grande de Novembro (como tinham sido todos os dias da sua infância), com o qual mostrara ao mundo tímido da algibeira do casaco, aos 12 anos, o direito de abrir a porta de casa. Vinte anos depois, a Luísa crescida avançava pelos dias pequeninos do seu presente com a mesma grandeza de sempre esbarrando no espartilho de quatro paredes vazias de emoção.
Reli a carta novamente: “rimas”, “madrigais”, “sinos” e “velas” – palavras de outrora, tentando, com a força dos gigantes do passado, vencer a “renúncia”, a “desistência”. Um curso em Letras e um trabalho em números – a esquizofrenia da vida adulta dilacerando a sensibilidade poética de uma rapariga nascida para ideias longas e algarismos curtos. As “horas erradas” e o “cheiro da fábrica” a justificar uma despedida enigmática… Foi então que vi.
Sempre ali tinha estado, mas só agora, na mecânica dos olhares repetidos, dei pela citação. Ela camuflara-a, eliminando-lhe as aspas. Deixava-nos um rasto subtil para que a encontrássemos? Apagara a autoria com que intenção? Sentei-me com estrondo na cadeira que tinha deixado vaga há poucos minutos apenas e disse, com a gravidade de quem desvenda um mistério.
– Vocês já leram bem as últimas palavras dela? “Estive a um passo de conseguir. Mas perdi, felizmente, perdi.” Não vos diz nada?
Olharam-me em silêncio por momentos. O Raul foi o primeiro a falar.
– Como fomos estúpidos! Alguém sabe onde ela guarda a caixa?

3 comentários:

Mário disse...

Leonor, claro que se percebe(caso não fosses identificada pela assinatura)que foste tu a escrever este trecho(repara que digo trecho) mas tanto tu como as outras estão em comunhão. São trechos do mesmo corpo como se fossem produzidos por uma só pessoa. Para além disso há emoção, suspense, densidade, sem quebras de autor para autor. Estamos a conhecer-nos uns aos outros é o que é. Este corpo insólito está a deixar de o ser. E por um lado é óptimo. Por outro não sei o que achar.

Susana disse...

Óptima sequência Leonor. E gosto da introdução da caixa, o que revelará?
Mário, deu-te para dúvidas existênciais agora a ti? ehehehe
Discordo completamente que isto comece a parecer produzido por uma só pessoa, pk a individualidade da escrita de cada um permanece intacta. Mas temos procurado respeitar um fio condutor para cada história, o que faz todo o sentido. A desta semana promete...

Maria das Mercês disse...

Agora que já publiquei, posso respirar fundo! Na sequência dos coments aqui presentes, também acho que continuamos a ter a nossa diversidade, as nossas diferenças, mas já nos conhecemos melhor... Leonor, gostei bastante da volta que deste à história! Caixa e encaixa...