quinta-feira, 24 de abril de 2008

Um profundo sentimento de culpa invadia-a. Remoía-se com a sua recorrente fuga para o excesso. Sabia que tinha de embargar o interminável matracar que irrompia do apartamento vizinho, mas não podia ter cedido à tentação. Apenas conseguiu vergar esta ideia quando se desvelou na corrente do rio da memória tudo o que havia sentido naquele primeiro encontro: “Sou Antão Barreto, o novo vizinho, biólogo de formação e tratador de animais do jardim zoológico de profissão.”

O leve mordiscar na orelha fez com que ele se contorcesse um pouco, o delicado deslizar face abaixo acentuou-lhe o movimento, a breve carícia nos lábios arrepiou-o, a suave pressão no queixo fez-lhe suspirar, o sublime toque bem no meio do peito desabrochou-lhe o arfar, o húmido galgar sobre um dos mamilos levantou-lhe todos os pêlos do corpo, a rápida chegada ao umbigo despertou-o do já inquieto sono.

Não foram mais de dois os segundos em que ficaram, de olhos bem abertos, a se contemplar. O coração precipitou-se em arrítmicas pulsações, todos os outros músculos enrijeceram até que os seus pulmões fizeram brotar um pavoroso grito. O prédio inteiro apeou-se da cama e mesmo a viúva-negra, que observava a partir do umbigo, foi tomada pelo susto.

A porta escancarada do apartamento deixava ver Teodora languidamente estendida na sua chaise longue, com as vergonhas cobertas por folhas – qual Eva a se preparar para regressar ao Paraíso – e os pés acolchoados por umas crocs. Saboreava uma tosta intercalada com fiambre de peru, ouvia See You Naked e não havia pregado olho a noite inteira, só para ver o vizinho correr nu porta fora, enquanto gritava como o mais fervoroso Ateu quando se apercebe que acabou de beijar Deus. Ficou triste. Afinal foi pouco mais do que um flash aquela passagem pelo ecrã em que a sua porta se transformara e agora tinha de ir recolher a sua arranha de estimação, a quem as glandes venenosas haviam sido removidas.

4 comentários:

rita disse...

a aranha não era venenosa?... ohhh...

johnsilva disse...

Da primeira vez é só para assustar. Se as obras continuarem, aí a coisa pode mudar de figura :P

Maria das Mercês disse...

Eu odeio aranhas.... e se ainda por cima se armam em inofensivas, que sentido é que faz???

johnsilva disse...

"se armam em inofensivas, que sentido é que faz???"

Pervertem o ódio ;)