sexta-feira, 18 de abril de 2008

Sílvio era, portanto, um monge, um mal entendido com um filho morto como um bafo nos braços. Essa história, por ti revelada John, não tem mais palavras, só silêncio. A mim, ele nunca ma contou... Mas já que estamos numa de o revelar sem lhe pedir autorização, houve uma história que ele me contou que me ficou sempre. A sua dimensão humana, de homem do contra, bruto e bom amigo em simultâneo, estava ali. E talvez algo mais, agora que juntamos as peças… Uma história longuíssima, tendo em conta o tamanho normal das suas frases. Nada de especial. Tudo especialíssimo, ao mesmo tempo.
Os seus vizinhos da frente eram um casal organizadíssimo. Um quadrado exacto. Entravam e saíam todos os dias à mesma hora. Faziam compras de supermercado às segundas, visitavam a mãe de um à terça e a sogra do outro à quarta, viam televisão (sempre na mesma sequência: telejornal, telenovela portuguesa, telenovela brasileira, off) até, exactamente, às 10h35. Se brigavam, brigavam à sexta, entre as onze e a meia-noite. Se discutiam à sexta, sábado, às onze certinhas, quando ele voltava do mercado e ela estava a acabar de desligar, pontualmente, o aspirador, ele trazia uma rosa. Branca. Se fodiam, não se ouvia… devia ser muito baixinho, imaginava Sílvio e, provavelmente, sempre na mesma posição. Missionário. Chegou a ter a teoria de que quando no domingo, se atrasavam cinco minutos na saída para a missa (o que acontecia de quinze em quinze dias) fosse por essa pecaminosa razão, mas nunca teve a certeza...
Até que um dia, quando ia a sair, percebeu que os vizinhos tinham deixado a porta aberta. Não resistiu. Entrou. O apartamento era exactamente como ele tinha imaginado. Um espelho, vivo e morto, de um quadrado exacto. Olhou segundos para aquilo e começou a mudar de posição (alguns centímetros) todos os objectos que conseguiu e saiu a correr. À hora exacta da chegada deles, começou a ouvir os gritos. Não paravam. A mulher chorava como um rio. Até hoje, Sílvio considera ter sido aquela a única boa acção da sua vida. O seu mais belo movimento solar.
O pior … o pior foi que entre os gritos que não paravam, Sílvio não resistiu … foi consolá-los... era a tal delicadeza … e assim… entrou na sua vida um casal muito organizado, portanto.
Toctoctoc… (tentou primeiro)
Dlim dlão…
Era um sábado à noite.

4 comentários:

Susana disse...

Doce Judite, GRANDE FAINEZA!!!
;o)))))
Adorei, poético a um tempo, sarcástico a outro, mas sempre impecavelmente bem escrito. Introduzes outra história dentro da história, muito, mas muito, gira.
Bela estreia!

Maria das Mercês disse...

Sim senhora, bela estreia no corpo! Gostei da reviravolta! Ricardo, a seguir, mais uma estreia.

johnsilva disse...

"Essa história, por ti revelada John, não tem mais palavras, só silêncio."

Mas isso é partindo do princípio que ele, de facto, morreu. O bisonte podia ter sido enterrado vivo lol De qualquer das formas, este episódio do passado de Sílvio está bastante interessante.

Judite Canha disse...

Gente faineza, delícia irmos encaixando como peças de um puzzle corpo.
Olha John... acerca dessa frase ainda tenho de te explicar. Mas não aqui, afinal os há... esses pequenos segredos que quem escreve não gosta que quem lê saiba.
:)
Abraço