segunda-feira, 21 de abril de 2008

Silvio, que desde o momento em que pisara a primeira tijoleira, logo à entrada daquele quadrado perfeito, estava completamente constrangido, ficou ali, de antepara a Julianne, cujo contacto do corpo frágil lhe causava profunda estranheza e desconforto. Sabendo-se responsável por aquele cataclismo na natureza morta que era o quadro do casal, remoeu entre dentes a alhada em que se via metido. A vizinha tomava aquela reza como uma expressiva, apesar de não perceptível, demonstração de solidariedade para com a devassa de que tinham sido vítimas. Silvio era homem de incontáveis defeitos, mas o cinismo não se enumerava entre eles, pelo que se absteve de comentar alto o que quer que fosse relativamente ao “patife” que entrara no apartamento.
Guilherme Oliveira, o vizinho, a quem a mulher chamava carinhosamente “Guilloume”, como se assim o conseguisse elevar com ela a outro nível da estratosfera, ia compondo o ramalhete, com a velocidade que conseguia imprimir, ao acto de devolver todos os objectos ao seu intemporal e perfeito lugar. Quando a sala retomou o seu aspecto original, Julianne conseguiu finalmente acalmar-se, sentou-se na beira da senhorinha, um cadeirão forrado de tecido florido que parecia ter sido reduzido para 2/3 da sua correcta dimensão. Esta calmia foi de apenas um instante, que durou até ela constatar, com horror, que quem a tinha consolado era senão o seu arqui rival vizinho. Silvio era a personificação do caos, de tudo o que podia correr mal na polidez de um indivíduo. Julianne duvidava mesmo que alguém que demonstrava tantas incapacidades de interacção social se pudesse classificar de vizinho. Para ela, ele era um selvagem. E a fantasia de Julianne era imaginar-se, e ao seu “Guilloume”, personagens do Admirável Mundo Novo. Havia que começar por purgar os elementos disfuncionais da sociedade e, para isso, qualquer comunidade era um bom ponto de partida. Julianne decidiu naquele momento tomar a seu cargo a domesticação de Sílvio. Através desse acto, toda a vizinhança evoluiria. Dobrou com precisão 3 vezes cada manga de camisa, como que a arregaçá-las e deu início aquela que seria a obra prima da sua vida.

2 comentários:

Maria das Mercês disse...

Ahahahah... muito bem, Susana, chegou tarde mas chegou em força! Mário, como vais descalçar esta bota?

Susana disse...

Caríssimos colegas, perdoem-me a demora na publicação do texto. Sobretudo a ti, Mário, a quem deixo pouco tempo para terminar o conto. Sorry!