quarta-feira, 16 de abril de 2008


Porque Sílvio nem sempre tinha sido assim. Aliás, o facto de ter reagido tão mal à actuação do “bisonte” era prova disso: havia resquícios de uma delicadeza passada, agora tão deslocada quanto um impropério num funeral. Era irritante, realmente, o modo como falava para dentro, deixando o ouvinte hesitante entre um arreganhado «como?» e um temeroso silêncio, não fosse Sílvio ter mais uma das suas temperamentais actuações; como era irritante aquela história de meter conversa com as pessoas — por causa disso os amigos já fugiam a tomar café com ele.
Quando eu conheci Sílvio, ele ainda mostrava os sentimentos. Ainda não escondia a sensibilidade. Talvez porque fosse mais novo. Já tinha passado aquela carapaça mole da adolescência e a açucarada euforia dos vintes, mas não tinha ainda sido cilindrado pela calosidade dos quarentas. E nessa altura Sílvio era um homem que tinha coisas para dizer ao mundo, teorias que tanto abrangiam a infinitude do universo como a doçura de um beijo, teorias mais baseadas no instinto do que no conhecimento livresco. Era um fulano interessante.
Eu não estava com ele aquando da actuação do “bisonte”. Mas consigo imaginar a cena.

3 comentários:

Renata Correia Botelho disse...

À Maria, aos antecedentes e aos que virão: isto está a ficar BEM INTERESSANTE! Parabéns, amigos! Vocês estão a conseguir recriar este corpo de forma espectacular: está cheio de vida, cheio de garra, cheio de força!!! E eu sou o que se pode chamar uma babadíssima, orgulhosíssima, vaidosíssima sócia honorária!!!

johnsilva disse...

Deixa-me colocar aqui o meu texto que já mudas de opinião. Qual será o morto em destaque desta vez? :P

Susana disse...

Belo texto, Maria!