quinta-feira, 17 de abril de 2008

O arrastado bater das botas sobre o cascalho solto anunciava a chegada do bisonte. Ostentando o seu hábito desbotado pela contínua baba que lhe escorria boca fora, o monge Sílvio via prostrado à sua frente o resultado das suas premonições. Foi numa tarde em que um demoníaco calor fazia estalar o pedaço de madeira que dava algum resguardo à sua cela que o eremita anunciou o destino daquele homem. Lera tudo na espuma do café que tomara dias antes com um desconhecido no antro de consumo mais próximo (ele era monge apenas em part time).

O morto fedia como água descoberta choca passados seis meses. Alguém tinha assassinado o bisonte – uma seta impregnada com toxina botulínica perfurara-lhe o baço. Trouxeram-no estatelado sobre uma chapa de zinco e despejaram-no naquele que seria o seu repouso final – a caixa de cartão onde o novo frigorífico do mosteiro viera embalado. A agressão que aquele bedum provocara no tracto nasal de Sílvio fez, todavia, disparar os zumbidos que pautavam a sua respiração, bem como direccionar a sua crónica propensão para o insulto para o padre que ali se deslocara para oficiar o funeral.

O compassado ruído e os trinta e quatro palavrões diferentes articulados em pouco mais de dois minutos deram a impressão errada de Sílvio ao enfezado sacerdote que, temendo um confronto físico, se pôs em fuga. O monge carmelita estava tão-somente a expiar todas as amarguras resultantes da sua não ordenação – a baba desfizera o papel onde escrevera as respostas do exame final do seminário. Deixado sozinho perante o bisonte, Sílvio tomou em mãos uma pá e delegou na força dos seus braços a tarefa pendente.

Pelágio António Prudente, filho de Sílvio, foi a enterrar a 27 de Agosto de 1997.

4 comentários:

Maria das Mercês disse...

Bem!!! Nem sei que diga! Muito intricado!

johnsilva disse...

Eu sou um intricador por natureza lol É isso ou eu decidi adaptar ao Sílvio a continuação que tinha prevista para a história de Pikus, o ouriço (não, não era o ouriço que morria).

Susana disse...

ahahahaha, intrincado, parente afastado do insólito, cai sempre bem aqui!
Muito engrançado, já ficamos a saber que os contos chegam ao John e mandam um salto mortal encorpado à esquerda. Mas que também caem sempre bem, de pé.

johnsilva disse...

"Mas que também caem sempre bem, de pé."

Desde que não se parta nenhum pé no processo, parece-me bem :P