segunda-feira, 21 de abril de 2008

sílvio silvou ainda mais do que o costume. acontecia-lhe isso quando era espezinhado por qualquer preocupação, respirava duma forma perturbante, muito parecida ao resfolegar duma locomotiva. então o que fazia esta mulher. como ousava perturbar a ordem com que displicentemente içara até aos bíceps as mangas da sua camisa. que atrevimento. enquanto se afundava nessas elucubrações, o monge não se apercebeu de algo que se urdia longe do seu alcance. um dos autores da história, um tal não sei que roberto entretinha-se a manobrar os acontecimentos de forma totalmente irresponsável.
sílvio procurou olhar a mulher nos olhos, um olhar de reprovação bem entendido, não o conseguindo por aquela estar demasiadamente concentrada na tarefa de arrebanhar um ímpio para a sua causa. as mangas adquiriam assim uma ordem irrepreensível ás mãos firmes e metódicas da secção feminina do casal oliveira. mas quando finalmente os seus olhos encontraram os dela, sentiu os seus braços levantarem-se como se estivessem a proteger do sol o seu rosto, e este a voltar-se na direcção oposta ou seja longe daquele olhar que irradiava doçura. então era aquilo a doçura duma fémea. sílvio nunca a tinha sentido. era a primeira vez. as mulheres tinham-lhe sido sempre impostas desde a avó que o criara, até á mulher com quem a mãe o quis casar e com quem na realidade casou e isso fizera com que tentasse alhear-se do mundo. no convento só havia homens. e mais tarde no regresso á vida leiga passou a tratar as mulheres como os homens de saias, com quem estava habituado a lidar durante o período de recolhimento. chamava-lhes irmãzinhas e elas habitualmente premiavam-no com um olhar de estranheza. Sentiu-se portanto incomodado por aquele foco intenso e simultaneamente suave. Naquele momento procurou corresponder e deve ter sido bem sucedido porque a mulher continuou a fitá-lo e agora era mais do que um olhar doce que recebia. Ah aquele gajo, o roberto era mesmo um merdas. Não desviavam os olhos um do outro e nem reparavam que a secção masculina do casal oliveira também não desviava os olhos deles. Muito menos se aperceberam de que os seus rostos se tinham aproximado tanto que podiam ver nítidamente a profundidade dos poros um do outro e que esses poros vertiam um liquido rosa bastante espesso que se veio a confirmar mais tarde ser sorvete de morango. Só acordaram do torpor em que se encontravam quando os seus lábios se juntaram e as suas línguas se enroscaram furiosamente uma na outra e isso porque a mulher sentiu o paladar de alcaparra, ingrediente que banira completamente da sua cozinha devido unicamente á rudeza da palavra. Aí recuou. As suas bocas separaram-se ruidosamente. O homem do casal oliveira aproveitou a deixa para gritar eureka eureka. Como era um indivíduo extremamente educado não ousara perturbar o enlevo da sua mulher e de sílvio mas agora que tinham acabado sentia-se á vontade para o fazer já sei porque é que as nossas coisa não estavam nos seus lugares. Mas eles não o ouviram. Sílvio tinha cuspido o resto de alcaparra que ocupara a coroa meio cariada dum molar e esse gesto de boa vontade caíra fundo no coração da fémea oliveira. saíram de mão dada de novo de olhos cravados um no outro de modo que estou em crer que se tenham estampado os dois contra a porta fechada do elevador. Mas isso já não nos diz respeito. Posso apenas mencionar o que aconteceu ás restantes personagens desta história – o macho oliveira ainda lá está a tecer a sexagésima quinta teoria sobre o dinamismo inesperado dos seus pertences e o autor deste belíssimo texto, o tal Roberto desinteressou-se completamente dele e procura agora resolver um problema no teclado do computador , cujo shift está a funcionar muito mal, resultando daí algumas irregularidades na escrita.

3 comentários:

Maria das Mercês disse...

Gargalhadas bem-dispostas! Esse tal de Roberto é mesmo passado, não é? Bom final, muito engraçado!

Judite Fernandes disse...

YES! Muito muito fixe (susana e mário)! Isto é muito faineza, fazermos este corpo. A ver agora que prenda nos traz a Rita... porque a mim me parece que, estando nós agora apresentados e apresentadas, bom...
:)

Susana disse...

Bom remate, Mário! Penso que o conto acaba da mesma forma sublimada que começou. Boa.