sábado, 19 de abril de 2008

Entrou e reparou pela primeira vez nas duas figuras com quem já convivia fazia alguns meses. Mas nunca tivera oportunidade de estar sob o mesmo tecto sozinho com elas, de respirar o mesmo ar. A mulher, de tão chorosa nem reparou no defeito aérofugo do vizinho, e deixou-se abraçar levemente como que apoiando-se, evitando um breve desequilíbrio, decorrente do seu estado de choque, já que o marido, a seu pedido, media com uma fita de costura, e lupa de mão (porque era meio cego) os afastamentos entre as peças. Fora esta situação grave de violação do seu ambiente, domesticado, que provocou o caos nesse universo perfeito. Ela era propensa a descontrolos provocados por qualquer engano, erro, desvio das normas, que chegassem até si por qualquer canal de comunicação. O último grande ataque tinha sido provocado pelo purée aux champinhons que era hábito confeccionar e que teve de ser feito com uma espécie diferente de cogumelo. Como ao primeiro domingo de cada mês comem sempre cogumelos passados com manteiga, batata e tempêros vários - o dito purée - esta não se coibiu de os comprar, mas perdeu pelo menos três cabelos com o stresse no caminho loja gourmet-maison Duchant, por ter de recorrer a uns cogumelos desconhecidos que lhe poderiam estragar completamente o primeiro dia da sua semana, e toda esta, na verdade. De origem francesa, tal com a receita, Julianne, muitas vezes chamada de Juliana pelas vizinhas que não a suportam e em volume que garante a audição do trocadilho por parte desta, conservava o seu apelido paterno, como que para marcar a diferença e poder sentir-se superior, imune ao defeitos e imperfeições das pessoas comuns - que segundo ela, estava mais que provado, se transmitiam com a convivência. Esta conduta, com o passar do tempo, levou à obsessão em que vive agora: a busca da perfeição e da tranquilidade, do equilíbrio, da harmonia, sobretudo em seu redor.

4 comentários:

Judite Fernandes disse...

olé!.... E agora?

Maria das Mercês disse...

Ricardo, gostei bastante da tua escrita, nunca tinha lido nada escrito por ti. E agora? Nova personagem, outro ritmo... e o fim cada vez mais perto.

johnsilva disse...

Gostei do estilo da coisa. E, cá para mim, Juliana é a ex-amante de Sílvio que lhe provocou o problema da baba ao trocar os cogumelos. Espero não estar a antecipar nada, mas passou-me isso pelo centro produtor de delírios enquanto lia o texto.

Susana disse...

Boa Ricky! Boa mesmo!