quarta-feira, 9 de abril de 2008

em ouriço meu

A ondulação amainara, o vento afrouxara e a chuva inibira-se. Susana podia finalmente dar a conhecer ao mundo Pikus. Mas este ouriço fêmea ainda não se sentia suficientemente seguro de si, para enfrentar o Baile de Debutantes do Clube Micaelense. Após uma longa noite de insónia que fugira ao real, concluiu que tudo quanto precisava era de um pouco de rimel na ponta dos espinhos.

Hau Lourenço da Costa, o espadaúdo birmanês que pachorrentamente ouvira os desejos de Pikus no saguão do seu centro de estética, já só pensava no bem-estar da sua carteira, preparando-se para confiar este cliente aos cuidados do seu mais requisitado operacional, o entrevado congolês Taye Lopes Figueiredo.

“O rimel apenas lhe desvela a ira. Você vai querer muito mais!” – segredou Taye ao ouvido de Pikus, enquanto um dos espinhos lhe perfurava o lábio inferior. Colheu num dedo as gotas de sangue que brotaram com o remover daquele arpão, passando de imediato o dedo ensanguentado pelo braço desnudado de Jezabel, a sua assistente. “Um pouco de silicone na base é tudo quando necessita para desfraldar a luxúria contida nestes glamorosos espinhos.” Pikus ficou a arfar com a sugestão, mas antes que abrisse a boca, Taye prosseguiu. “Vai querer dar azo à gula no baile, por isso é melhor fazer já uma lipoaspiração preventiva. Não se deixe é enganar pela ganância dos outros. Aqui é mais barato!” – confidenciou Taye ao outro ouvido de Pikus, antes de dar a estocada final que selaria o negócio. “Encher-se-á de orgulho e será a inveja de todas as outras!”

Pikus saiu disparado do quarto dos fundos, atropelou Jezabel e deixou Susana calmamente a ler o último número do Times Literary Supplement que encontrara na sala de espera. O terror que se apoderara de Pikus só deu os primeiros sinais de cedência quando vislumbrou o sacerdote Mário Roberto. Mário estava atarefadíssimo a vestir o Corpo Insólito com o novo fato de três peças costurado pelo preguiçoso alfaiate John Silva.

4 comentários:

Maria das Mercês disse...

Ahahahah! John, gostei dos papéis que distribuíste ao pessoal. Muito engraçado, o teu texto!

Susana disse...

John, que texto soberbamente espirituoso, resultado de um acaso (ou aselhice minha) neste mundo blogosférico, pois não fiz qualquer intenção de aqui postar o pikus, ele simplesmente... apareceu!
Agradeço-te as sonoras gargalhadas que me proporcionaste!

rita disse...

humm... no meu tempo, para se ser uma debutantezinha jeitosa, bastava parecer um suspiro...
se calhar era por isso que não tinha tanta piada.

johnsilva disse...

Minha cara Maria, ainda não atribuí papéis a todos, mas isso é algo que até se pode resolver. Basta a Susana ocasionar a presença neste espaço de mais algum ser de natureza animal, estando ou não o mesmo necessitado de tratamentos mágicas de Taye Lopes Figueiredo. Ou, quem sabe, a Rita colocar por aqui uma receita de suspiros (sim, porque suspeito que haja muitas maneiras de se fazer suspiros).