sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Na cama ao meu lado dorme um tipo que permuta sonhos. Em casos especiais, vende. Tem coisas de todos os géneros, algumas de grande qualidade, mas caríssimas. Caríssimas mesmo. E não tem nada repetido, que possa ficar num preço mais baixo. O dinheiro que me resta não paga sequer o idílio de um cigarro depois do almoço. Muito menos uma cervejinha fresca. Até já trocava o sonho da viúva por uma cervejinha fresca a meio da tarde. De qualquer maneira, tenho poucas hipóteses de fazer negócio com ele honestamente. O gajo soube das minhas histórias antes de me mandarem para aqui, diz a toda a gente que por nada deste mundo trocaria um sonho comigo. Segundo ele, trata-se de uma questão de justiça cósmica. Eu, sinceramente, não entendo o que isso seja, não conheço nenhuma das duas palavras e nunca as encontrei assim juntinhas nas revistas do social que me trazem as senhoras bem intencionadas.
Costumam sedá-lo cedo. Hoje arranjou uma algazarra qualquer com um outro, coisas de negócios, e percebi que lhe aumentaram a dose. É a minha oportunidade. Consegui, há pouco, sacar-lhe da algibeira a chave do cacifo onde o tipo guarda aquelas coisas. Tenho-a na mão, estou cheio de frio. Sinto-me tentado pelo sonho fácil de voltar ao calor dos lençóis, mas não posso. Nem pensar. Pode estar ali dentro a minha cerveja, o desportivo ou um avião só para mim. Procuro, com jeitinho silencioso, rodar a fechadura. Engata um pouco a princípio. Mas está a ceder, é extraordinário. Está mesmo a ceder. Abriu.

4 comentários:

leonor disse...

Perfeito, Renata! Agarraste muito bem as dicas do texto do Nuno, imprimiste dinamismo à acção e criaste suspense no final - fizeste tudo o que deveria ser feito nesse momento! Excelente!
Já não é preciso matar o homem à dentada - a não ser que ele desate a morder o cacifo...

Maria das Mercês disse...

Obrigada, Nuno. Obrigada, Renata. Como primeira "mãe" deste texto fiquei bastante feliz quando percebi que ele estava a caminhar mais para os lados da loucura do que para o do homícidio de cães à dentada (Mário, tu deves estar a adorar este chinfrim todo em volta do teu texto...). Gostei mesmo muito, pelas mesmas razões da Leonor. Posso fazer minhas estas tuas palavras, Lô? Rita, em frente!

leonor disse...

Oh, Maria, podes sempre fazer minhas as tuas palavras! Depois mando-te a conta! lol
Rita, queres uma sugestão para o que está dentro do cacifo? A língua do Mário... depois de um encontro fatal com o dono do cão, que é amigo da Renata, que é amiga dos animais, que são nossos amigos, que estão sempre presentes nas horas difíceis, que são o oposto das fáceis, que...
Hem? Foi ou não foi uma bela ajuda?
Depois mando a conta para ti também.

Susana disse...

Outra reviravolta, outra vez muito boa, rematada em suspense. Adorei o permutador de sonhos!
O que se vislumbra no cacifo, Rita? Isto está de se esfregar as mãozinhas...