sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Lex Luthor praticava a mentira como quem vai ao ginásio andar na passadeira. Todos os dias procurava exercitá-la com alguém. Quando não se cruzava com uma idosa ou com um ministro, mentia a si próprio - como qualquer vulgar cidadão nos momentos decisivos da existência. Ao acordar, realizava uma curta metragem mental sobre a sua vida e tornava-a ora mais deprimente ora mais lúdica, conforme estivesse mais sintonizado com o género tragédia ou comédia. Aliás, isso de se chamar Lex Luthor e de vestir de organdi era a primeira das suas aldrabices. Uma aldrabice parcial, pelo menos. Durante o dia era Lex Luthor e assinava, sem qualquer aptidão ou gosto, colunas de gastronomia. Mas, à noite, era outra coisa: chamava-se Nini, como na canção, e vestia chita. Era conhecido no mundo do travestismo e da prostituição por alimentar um vício original. A maior parte dos outros (e das outras) ia para as esquinas vender o corpo por heroína. Ele vendia o seu para alimentar a mentira.

2 comentários:

Maria das Mercês disse...

isto está aceleradíssimo! Muito, mas muito engraçado! E com muito pano para esticar, cortar, dobrar e fazer mangas! Boa, Nuno!
PS - Acho que que a onda "Beam me up, Scotty" já virou mais para o lado "Priscilla, Rainha do Deserto"

Susana disse...

(sonora gargalhada)
Mais uma ficha...mais uma voltinha! as crianças não pagam mas também não brincam...!
Eu cá não me vou preocupar com esta personagem até ela me vir às mãos. Já bastou a crise do doido varrido a morder cães.
Este conto está fazendo juz ao blog: insólito.