domingo, 10 de fevereiro de 2008

Nasce a vontade de regressar ao castanho-escuro da terra fértil, ao húmus negro anterior à erva, à urze, às rosas. Nasce o grito da vida que não sabe que o é; o choro inteiro, sem medo, sem dor, só choro, ânsia aguda de ser.

Assim estiveram eles durante algum tempo. Dias, semanas - é dífícil precisar. Horas, certamente. Ninguém deu por nada, como antes não tinham dado pelo abismo de folhas pálidas e ramos quebrados que os separara. Por entre o fumo do arbusto queimado, os dois respiravam o oxigénio sujo da esperança reacendida. E fingiam não sentir o ardor nos olhos, evitavam referir as cinzas que lhes poisavam nos lábios e lhes gretavam os beijos com a secura árida do deserto. Depois do fogo, a vida foi regressando à normalidade. Com uma pequena diferença: ela não se lembrava de que tinha olhos; ele não se esquecia de que a roupa dela tinha fechos.

Só mais tarde veio a fase do estudo. Estudaram-se em segredo, cada um a si próprio, depois um ao outro. Chegaram em simultâneo à página das conclusões, sem, no entanto, concordarem com o texto. Sabiam apenas que eram uma indelével impressão digital no arquivo do pecado, que só sai com o fluir ininterrupto das águas matrimoniais. E prosseguiam, de casa lavada e alma suja, a vida que sempre tinham aprovado e prometido um ao outro. Mas o amor, composto em partes iguais com o ódio, recuava em passos apressados, deixando à metade odiosa da sua constituição a ocupação gradual dum território que um dia fora só seu. O pacto de aliança público que haviam assinado anos antes transformava-se, com o passar do tempo, num tratado secreto de hostilidades surdas.

Bem longe ia o tempo em que ele, jovem macho, farejava, deslumbrado, doces caudas do lar, se quedara, hipnotizado, diante da cauda amada, posara para fotografias (agora jazendo amarelecidas no álbum de casamento), rendido ao magnetismo de uma longa cauda branca. Era agora um homem amargo, que se sentia ferido por quatro metros de tecido branco bordado por mãos cúmplices daquela que lhe roubara a liberdade, nomeara os seus defeitos, expusera a sua submissão.

Ele envelheceu primeiro. Quando morreu, foi a enterrar deitado sobre o vestido de casamento dela. Ninguém perguntou porquê. E ela nunca explicou.

16 comentários:

Maria das Mercês Pacheco disse...

Estou sem fôlego. Achei o final lindíssimo: trágico, humano, verdadeiro. Estou sem palavras. E o pior é que tenho de começar outro conto amanhã... Leonor, estou...

rita disse...

não é para nos gabar, mas parece-me que este conto resultou mesmo bem.
venha o próximo!

Renata Correia Botelho disse...

Belo final, Leonor. Obrigada.
Gosto sobretudo do último parágrafo, bastante telegráfico, com a limpidez das únicas palavras necessárias. Quase dava, sozinho, um conto. Ou um poema breve, bem ao estilo oriental. Dizer tudo, dizendo tão pouco. Muito bom.

JNAS disse...

Leonor : devo dizer, sem favor, que este epílogo está magistral. Ao contrário da vulgaridade que se tornou numa espécie de epidemia ainda há quem escreva para lá das letras light. Bela prosa a tua. Cheia de calorias e de sabores que convocam o que de melhor tem a literatura : uma experiência sensorial e um arrepio fantasmagórico que as personagens suscitam. Creio que pela qualidade superior da pena era caso que merecia uma carreira a solo no domínio dos "contos" ou até da "novela". Alma criativa e estilo narrativo não te faltam.
Faz tempo que não lia um postal com tanto prazer.
JNAS
(* sugiro apenas que façam a "justificação" do texto. Coisa simples de fazer num blog tão estilisticamente afirmativo)

leonor disse...

Obrigada pelas vossas palavras! Devo lembrar que este final não seria assim se antes não tivesse havido mãos talentosas a puxá-lo para a direcção que tomou? Talvez deva, mas não o farei. Fica para uma próxima oportunidade: para quando a inspiração me faltar e eu for acometida de uma virose literariamente incapacitante, por exemplo.
Por fim, (perdoa-me, Maria mas tenho que corrigir a tua gramática) O MELHOR de tudo é que a Maria começa amanhã outro conto.

Corredor disse...

de mestre, sobretudo o desenlace.

Corredor disse...

só falta um título

Maria das Mercês disse...

Que gramática? Que vocabulário? Que sintaxe? O caos...

leonor disse...

... a dúvida, o arbusto que regressa! que ficará para sempre connosco!

Quanto ao título, concordo. Aceitam-se sugestões.

Vitor Marques disse...

Leonor, depois deste epílogo terei que agitar a bandeira branca, Definitivamente não possuo armas que possa esgrimir com as tuas.
Parabéns.

leonor disse...

Esta vitória deixa-me um sabor amargo na boca... eu estava a gostar do duelo! E não sei se mereço tamanho elogio. Obrigada!

Susana disse...

Simplesmente brilhante, Leonor!
E subscrevo na íntegra as palavras da Renata, o último parágrafo não tem uma vírgula sequer a mais do necessário. Brilhante!

magui disse...

Vou para a Universidade dos Açores, só para ter aulas com esta Senhora fantástica!!!

JNAS disse...

Ele há coisas que não se aprendem na Universidade !!!
(*) Acho que vou passar a acompanhar o corpoinsolito sem comentar ! Dá muito trabalho preencher tanto campo de segurança para um mísero comment !

leonor disse...

Caro amigo: o teu não foi um "mísero comment". Tive muita dificuldade em responder à altura das tuas palavras, as quais acho generosas demais. E é sempre um prazer receber retorno do que se faz, seja ele positivo ou negativo, pois sei que tenho muito que aprender, o que faço com muito prazer. És sempre bem-vindo, tu e os teus comments nada míseros.
Um abraço!

Nuno Costa Santos disse...

Muito, muito bom - com especial acento, como fizeram outros, no último parágrafo. Até já. Parece-me que está a ser uma óptima experiência.