sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Deixaram, com o tempo, de cruzar olhares, de interceptar toques cúmplices debaixo da mesa, ela já não sentia o cheiro dele nas almofadas, ele já não a procurava na rua, entre as multidões. Não se insultavam, não se feriam, não guardavam qualquer rancor. Pagavam as contas da casa no dia certo, tinham telemóveis com câmaras, internet sem fios, uma televisão em cada divisão e uma empregada que lhes deixava, à excepção da alma, tudo irrepreensivelmente limpo. Saíam juntos de manhã para a confusão do trânsito, dissolvendo o seu silêncio nos sons vivos da cidade, para tranquilidade de ambos. Estava tudo certo assim. Tudo no seu lugar. Recebiam e faziam visitas aos fins-de-semana, era quando sabiam mais qualquer coisa da vida um do outro. Dividiam carro, tecto e solidão. E o arbusto, que se adensou e cresceu. Ramificou-se, sulcou a terra de raízes. Deu flores em Abril e frutos no Verão, recolheu sempre ao verde pálido do início, mas maior, mais fundo, mais sólido. Edificava-se entre eles com uma robustez possante, fazia-lhes sombra, barrava-lhes os passos. Por vezes dava a impressão fugaz de desaparecer, mas logo regressava, fecundo, numa explosão de ramos que se propagava pela casa toda, pelas coisas, pelos corpos.

Num fim de tarde, ao chegar, ele encontrou-a sentada na cama, muito pálida, com os braços caídos no colo e o velho álbum de fotografias aberto sobre a colcha. Ela olhou-o fixamente e perguntou-lhe: “E os meus olhos, de que cor são os meus olhos, sabes ainda?”.

5 comentários:

leonor disse...

Eu não disse? Injecção de soro poético na dose certa para a Rita continuar a insuflar vida neste corpo dito insólito. E, para não variar, em gotas de frases admiráveis!

Mário disse...

Isto vai, meus amigos, isto vai...

Nuno Costa Santos disse...

Excelente, excelente.

Renata Correia Botelho disse...

Isto é um jogo bem interessante... A história cresce, é independente de nós, somos apenas os mensageiros.
Nuno: o teu "arbusto" foi de mestre!

Susana disse...

Esta história é de facto um corpo vivo, Renata! E apesar o cunho e mestria pessoal de cada um, vai crescendo com personalidade quase própria... o que não deixa de ser algo insólito!
Peço absolvição pelo menor entusiasmo demonstrado pelo nome do blog, inicialmente. É extremamente adequado, eu é que não percebi de véspera...louraaa!