quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008




Tratava-se de reter toda aquela felicidade em apertados limites – fotografias. O mestre do ofício agarrava-se à câmara como a uma tábua de salvação prestes a soçobrar, agitado por um nervosismo difícil de esconder, patente nos volteios em torno dos recém-casados, na conquista do melhor ângulo, dalguma irregularidade no ajuste do vestido ao corpo, de qualquer distorção na gravata do recém ex-nubente. Não interessavam ao compenetrado profissional as efémeras nuances de comportamento, as subtilezas, os momentos irrepetíveis. Já sabia de antemão o que queria. Tinha cunhado há mais de duas décadas no seu subconsciente algumas poses e utilizava agora esses mesmos paralíticos apodrecidos para enviar à posteridade notícia da união de dois jovens. Familiares e amigos do casal haviam de deleitar-se, folheando as páginas do grosso álbum, espécie de kama sutra moralista com variantes das três primeiras posições repetidas até à exaustão. Alterava-se somente o pano de fundo que poderia muito bem ter sido retirado dum compêndio de botânica.
As fotografias amareleceriam no calhamaço e na memória, o vestido e o fato abandonados à voragem das traças, mas do ritual fotográfico, família que se prezasse nunca poderia abdicar.
De súbito um grito atroz transformou o bucólico quadro numa folha em branco. Dir-se-ia que o véu tinha caído enorme sobre o parque e os seus intrusos, fazendo-os desaparecer, abafando todos os outros ruídos, perceptíveis ou não. Alguns segundos decorreram até que através da porosidade do tule, pudéssemos entrever os esposos; já não uma à frente e outro atrás solícito, mas dois seres humanos frente a frente como animais selvagens enraivecidos. “Nunca fazes nada de jeito”, rosnou ela.

4 comentários:

leonor disse...

Ainda bem que não a puseste a miar. Very good!

Maria das Mercês Pacheco disse...

Bem, Mário, esta viragem para uma já briga conjugal é tremenda... Se calhar estava certa naquela possibilidade de um conto de poucas páginas?? Well-done!
Já agora, aquela hipotesezinha de isto tomar um caminho sensual...? Nada?

Susana disse...

É assim mesmo, o Mário já pôs a fêmea a rosnar... quem vier a seguir que desengate o novelo, hihihi!
Maria querida, deixa isto vir outra vez parar às mãos das gajas que pode ser que algo se sensualize...
Aproveito igualmente para deixar aqui, oficialmente registado, que estou a adorar. Parabéns aos escribas até ao momento iniciados!

Mário disse...

isto só vai tomar o caminho que quiser, deixem este corpo à solta e vão ver que não teremos mão nele.