quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

“E tu, minha…?”, salivou ele, mesmo assim, sem arriscar no qualificativo, como se na sua reacção de pêlo eriçado ainda tivesse conseguido puxar do travão das palavras. “Minha quê?”, questionou a moça, mais com curiosidade do que com ofensa (pois se nunca tinha havido zaragata entre os dois). “Olha, minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha, minha …”. Dizem os de melhor ouvido que, depois de tanto andar à procura do termo adequado, chegou a pronunciar um vocábulo reconhecido pelos dicionários disponíveis. O ponto é que o disse com o volume quase no mínimo porque nem ela o conseguiu perceber. Os especuladores de serviço não deixaram, porém, de lançar o seu serviço de apostas. Nos clubes e mercearias à volta do jardim, há quem jure ter ouvido termo terno e adocicado e há também quem insista na tese do palavrão e da calúnia. Ainda hoje se contam histórias e lendas (e se publicam livros) sobre qual a palavra dita naquele dia, naquele cenário, àquela hora. Certo, certo é que a acção voltou à sua dança inicial. Para não estragar a fotografia e o trabalho do artista, pois. Que a misteriosa ocorrência não os impediu de voltarem a ser casal que gosta de sentir o seu valor apreciado, e que se multiplica em atenções redobradas com a cauda, no que é secundado por outros machos e fêmeas, se os houver por perto. Voltaram a ser - fotograficamente - o casal do início mas agora havia um novíssimo arbusto entre eles. Deram-lhe um nome: dúvida. Até hoje não o conseguiram cortar.

4 comentários:

Mário disse...

Trés bien. Quem se vai ver em trabalhos agora é a Renata. Ai que esta história está a ficar sinuosazinha

leonor disse...

Don't worry, Mário. Ou eu muito me engano ou isto está bem ao gosto da Renata e ela vai-se desenvencilhar muito bem do arbusto estrategicamente colocado entre o casal e antes do texto dela.
Venha o seguinte! Mal posso esperar: será de natureza animal, vegetal ou mineral? Esta especuladora aposta numa injecção de soro poético.
Amei o "arbusto da dúvida"!

Maria das Mercês Pacheco disse...

Leonor, concordo contigo, o desafio é enorme e a Renata está mais do que à altura... afinal, ela é mais alta que qualquer "arbusto"! Isto está a ficar muito interessante...

Nuno Costa Santos disse...

Thanks. Fiquei na dúvida em humanizar ou não as "personagens" (sobretudo por causa da referência no primeiro texto às "patinhas peludas"). Fi-lo, seguindo a dica casamenteira do Mário Roberto. Até já.