segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Leu e releu aquela palavra à espera que as letras se alterassem. Emudeceu diante dela, incapaz de a pronunciar. Saiu para a rua, inseguro, vagueou sem direcção… Tantos anos… tantas noites… sem nunca sentir a paixão! E agora que a descobria, ela esbofeteava-o na cara. Assim, à traição. Por cima de um bidé.
Naquele quarto rasca, Lex Luthor aprendeu uma lição.
Viver com a mentira tinha sido a sua forma de denunciar um mundo intrinsecamente falso, embora aparentemente coeso. Passara anos às voltas com a Teoria da Grande Trampa. É verdade: antes de escrever para o jornal tinha estudado Filosofia. Queria conhecer os mistérios do universo, indagar o sentido da vida. Tinha dito à namorada: Cristina, não vais levar a mal, mas a verdade é fundamental. Foi para a biblioteca e descobriu aqueles que viriam a ser os seus autores preferidos: Joe Shuster e Jerry Siegel. Aprendeu com eles (que os outros não sabem nem sonham) o êxtase da ficção, a alquimia do irreal. Adoptou a máxima We all live in a yellow submarine. Acima de tudo, a leitura conduziu-o à exigência da metamorfose. All we need is change. Ta-ta-ram-ta-ram. Como em Kafka! Mas de modo mais moderno. Científico. Por isso decidira chamar-se Lex Luthor e escrever para um jornal. Sempre era mais digno do que ser uma barata fechada num quarto imundo. A barata diz que tem sapatinhos de veludo, mas é mentira. Sempre a mentira! Foi este o seu tributo à tradição ocidental do pensamento abstracto; a sua homenagem ao progresso; o modo que encontrou de colorir com o lápis da contra-factualidade aquilo que, de outra forma, continuaria sendo o cinzentismo duma existência vã. Uma noite, olhou para o céu – estava estrelado. Pensou em ovos e resolveu escrever uma coluna de gastronomia. Estava tudo certo, que é o mesmo que dizer: tudo errado. Depois apaixonou-se e passou a estar tudo errado, que é o mesmo que dizer: tudo certo.
Naquele quarto rasca, Lex Luthor aprendeu uma lição que o fez recordar-se da Grande Trampa. E decidiu: vou partir naquela estrada onde um dia cheguei a sorrir. Mas antes, precisava de fazer algo… Algo…bom…. Chegou a casa, sentou-se ao computador e escreveu:

10 comentários:

Susana disse...

Lex Luthor/Nini, conto surreal e torneado, agora na sua versão musical!!! podemos perfeitamente vender os direitos ao La Féria...
Leonor, deliciei-me com as referências musicais tornadas filosóficas, puseste-me a dar belas gargalhadas. E a Teoria da Grande Trampa, ahahahah!

rita disse...

não tem uma vida fácil, este pobre lex... mas pode ser que encontre a felicidade numa nova carreira musical ;)
amanhã descoriremos.

Maria das Mercês disse...

Amanhã vão descobrir coisa nenhuma, que eu vou dar uma de kamizaze! Leonor, adorei "cantar" o teu texto! Boas gargalhadas!

Susana disse...

Kamizaze é muito bom, Maria, muitooo bom!

Mário disse...

Tive tanto trabalho para criar um monstro para que seis chatos o transformassem num ser humano normal com paixões e tudo. Que Grande Trampa...melhor...que Grande Tampa eu estou a levar

Maria das Mercês disse...

Opá, era kamikaze, mas a minha dislexia digital deu nisto! Ou então é do teclado. Pois... leonor, deixa-me repetir: adorei o teu texto!

leonor disse...

ariútókintomi?

leonor disse...

The former question was to Mário.
Thanks, Si.

Maria das Mercês disse...

Deixa estar, Lô, desde que ele transformou o meu maluquinho sensível num assassino de cães, he had it coming! Eheheheh...

Estou a sentir o peso da responsabilidade!

Nuno Costa Santos disse...

Muito divertido este exercício. Também gostei da mistura de referências filosóficas e pop (com grandes letras e refrões, eh, eh). Até já.