segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Espreito o corredor - vazio! Sigo até às escadas - ninguém! Paro à escuta - silêncio! O caminho está livre, como eu supunha. Desço-as devagar. Procuro a Avenida da Memória. Lá está ela: 5º degrau oeste. Sento-me no terceiro banco enquanto abro a embalagem de Happy Meal. Está a correr tudo confome o plano. Vejo a chave e a escada - óptimo! É daquelas desdobráveis que se arrumam em qualquer parte. Até numa embalagem de cartão! Sinto-me bem. Quase feliz. Mas elas começam a surgir. Cercam-me. Roubam-me ar, espaço e força. Não consigo mexer-me.

Alguém lhes deu o nome de recordações; umas cabras é o que são, a passear a estas horas na avenida. Nunca deixam um tipo em paz. Uma após outra, desfilam perante mim. Fecho os olhos, mas elas dominam-me. Mostram-se sem pudor. A mais sádica imobiliza-me. Sou de novo réu, horror e loucura. Protagonista de fugas impossíveis; primeiro, na categoria de evadido espontâneo, correndo na modalidade do atletismo paralisante; depois, procurando soluções mais refinadas (atirar-me da janela, balançar-me numa corda, deixar-me ir com a água do banho, enrolar-me nos pneus dos carros que nos visitam). Planos loucos (até para mim!) que nunca pus em prática porque nenhum me daria o que quero mesmo: uma mini e o desportivo. Quero ver-me subir em flecha. Cair com estrondo. Rolar na relva. Arrotar na esplanada. E voltar lá. Preciso de voltar lá.

Por isso gosto de aviões. O traço magenta que me espera lá fora empurra-me na direcção da porta. As cabras não querem deixar-me partir. Mas eu sou forte! Vou conseguir! Suporto a custo o gelo do suor enquanto abro o cadeado de ferro. Estou a tremer. Já está! Saio para o pátio. Elas tentam seguir-me, mas dão-se mal com o ar. Ficam para trás, as nojentas, encostadas aos vidros, desfiguradas no seu esgar de desespero.

Já oiço o barulho do avião, zumbindo numa pontaria de abelha só para mim. Sinto-me pólen. Quase mel. Afortunado. Quase feliz.

Encosto a escada ao muro. Subo-o depressa. Atrapalho-me com as mãos. Bato com a cabeça numa pedra. Escorrego com a breve tontura que me dá. Mas não desisto. É agora ou nunca. Consegui! Preparo-me para saltar, mas algo me detém. É a única recordação que não consigo vencer. Já há muito tempo que não a via, mas reconheço-a de imediato.

6 comentários:

Susana disse...

Adorei, Leonor. Rico e belo nas palavras, criativo no desenrolar da trama. Já conseguimos gostar da personagem outra vez, o que parecia impossível (lembram-se que a queríamos matar?!).
Cá está como, a sete mãos, se consegue dar a volta à coisa. Eu aprendi mais uma lição.

Renata Correia Botelho disse...

Gostei IMENSO!!! Um texto cheio de ritmo e imagens fortes, quase cinematográfico. E esta coisa de deixar a ponta do véu (do mistério) para a mão do dia seguinte tem realmente piada e parece-me que foi funcionando bem neste conto.
Maria... A chave de tudo está, afinal, nesta recordação...

Maria das Mercês disse...

Recordar: reviver: lembrar. Lá vou ter de conjugar esse verbo! Leonor, gostei mesmo muito do teu texto, da acção, da vivacidade e, claro, da personagem. Muito bem, como sempre! And I'll be back!

Bala disse...

Sugeriu-me um amigo que vos acompanhasse. Tem sido, admito, um agradável exercício. Parabéns.

Mário disse...

boa!Isso está a correr às mil maravilhas. A correr mesmo, com ritmo e enxuto de rodriguinhos.

leonor disse...

Thanks to all!
Está a ser uma experiência muito positiva, não só em termos de produção como também de leitura. Como cada um de nós tem estilos diferentes, e não é sempre o mesmo a iniciar e a concluir os contos, é natural que cada um deles se revele também uma unidade de escrita bastante diferente das anteriores. Estamos, de certa forma, a reproduzir a lógica da vida: criamos um corpo, contribuimos para que ele cresça, mas nunca sabemos o que lhe irá acontecer no desenrolar do seu percurso. Por vezes, desvia-se do caminho que traçámos para ele; outras mantém-se no trilho. Mas sempre nos surpreende.
Maria, mal posso esperar para conhecer o desfecho desta fuga.