quarta-feira, 7 de maio de 2008


Cena IV
Jovem e avó estão no centro do palco, ele com ar revoltado, ela humilde; sentado no chão, o Senhor dos Passos tenta retirar o espinho do pé.

Jovem – Oh avó, tu não estás mesmo aqui, percebes, isto não passa de mais uma ilusão da Igreja para nos fazer acreditar que…

Senhor dos Passos – Ah sim? E este espinho, é a fingir? E o sangue no meu pé, é sumo de tomate? Olhem que esta…

Avó (tenta pousar a mão no ombro do jovem, que se afasta) – Fé e amor, fé e amor!

Jovem – E o que mais? Extracto de caviar para a pele, pó de diamante para as unhas, manteiga de karité para o cabelo e um cartão VISA com «plafond» ilimitado. Tenham paciência! (afasta-se, aos gritos) Marília, onde estás?

Senhor dos Passos – Alguém tem aí um canivete? Ou uma faca de fruta? Também serve.

Avó senta-se no sofá, com ar pesarosamente pio. Jovem continua a procurar Marília. Senhor dos Passos permanece no chão, a escarafunchar no pé. Pela esquerda baixa, grupo de adolescentes e criança regressam, cantado e dançando um tema tipo Andrew Lloyd Webber. Colocam-se no centro do palco. O Senhor dos Passos fita-os abismado. O jovem não lhes presta muita atenção, pois está a falar ao telemóvel.

Grupo

“Ele é perigoso!
Ele não é quem diz ser!
Loucos, vocês não percebem,
temos muito a perder,
temos de o esmagar,
como o outro antes dele,
ele tem de morrer!
Pelo bem da nação, ele tem de morrer!
Tem de morrer, tem de morrer!!!”

Entra a tia, de punhal em riste e dirige-se ao jovem.

Tia – Tens de morrer! Sabes demasiado, tens de ser eliminado!

Jovem – Mas está tudo louco? Vim aqui porque me iam dizer e mostrar coisas importantes, nada vi, nada me disseram e agora tenho de morrer porque… ARGH!

Tia crava punhal no peito do jovem, que tomba lentamente para o chão. Grupo de jovens e criança pegam na cruz de Senhor dos Passos, deitam o jovem em cima e saem pela direita alta, cantarolando “Ele teve de morrer!”. Avó e tia seguem-nos. Todas as luzes se apagam, à excepção de foco roxo que incide sobre Senhor dos Passos, ainda sentado no chão a escarafunchar no pé.

Senhor dos Passos – Olhe, espere… ei, passe-me aí esse punhal!

7 comentários:

johnsilva disse...

Bem me parecia que faltava uma morte a esta peça. Acho que, para completar a coisa, só faltou um elemento do público invadir o palco e desatar à porrada com os actores.

Maria das Mercês disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria das Mercês disse...

Isso já passava das marcas, man!!! Quem disse que havia, sequer, público lá? Eheheheh

Mário disse...

triste final feliz. Tá óptimo

Susana disse...

Boa, Maria! A peça resultaria. Digo eu que de teatro percebo pouco. Fica-se sem se saber grande coisa (como convém nestes temas), o quem não deixa de ser um final feliz, porque, confesso, este jovem estava mesmo a pedi-las... ehehe

Judite Fernandes disse...

uau...

Maria das Mercês disse...

Só quero esclarecer que o comentário eliminado foi meu. Inadvertidamente, publiquei 2 vezes o mesmo.... Argh!!!! Agradeço as palavras de todos :)