sexta-feira, 23 de maio de 2008

Amanhã. Godot virá amanhã. Foi o que Elton pensou a seguir. Porque haveria de se ter apaixonado por ele? Ou melhor, porque raio é que se apaixonou? Não era mais fácil viver antes? Que fazer com aquele tremor de arrepio que lhe arrefecia e aquecia o corpo, duas vezes num só, duas pétalas de desejo no mesmo poema enluado? E com a porra da porra da espera, que fazer?

A raposa é que tinha razão quando disse ao principezinho:
Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração...”

À espera de Godot. À espera que o amor entrasse pela porta adentro, agarrado à chuva, voando cádmio pela poltrona que fazia cucu, cucu, como um beijo. Elton João decidiu-se. Esperá-lo-ia na cama. Até lá, sonharia apenas com os seus corpos nus vistos de cima no espelho gigante do céu.

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