quarta-feira, 21 de maio de 2008


E que outra coisa poderia ter dito? Ali do fundo da sua poltrona amarelo-cádmio não era mais que um espectador; nem isso, a maior parte das vezes, apenas um ser, ocupando espaço e absorvendo oxigénio, mas pouco mais. Era assim que se via, oscilando entre a comiseração e a indignação. Tudo auto-infligido.
Por isso gostava tanto das visitas de Godot. Mesmo que tivesse de esperar. Aliás, costumava dizer de si para consigo (andava, ultimamente, a falar imenso sozinho e em voz alta!), que estava à espera de Godot. À espera de Godot.
Pelos vistos não era o único.
Elton João levantou-se da poltrona para espreitar o dia para lá das gelosias. Os dedos já estavam cansados de tamborilar, o Pensal já estava frio e o relógio de cuco já marcava as 12 horas e dezanove minutos. Olhou para o passeio lá em baixo. Travões a chiar, um táxi parava mesmo em frente à porta do prédio. “Será alguém que chega?”, perguntou-se (em voz alta, novamente…) Elton João.

1 comentário:

Susana disse...

Boa continuação, gostei, Maria. E a imagem do táxi velhinho é uma delícia!!!