sábado, 17 de maio de 2008



Ele estava sozinho. Farto de estar sozinho. Todo o espaço que ocupava era bidimensional e parecia não ter alma. Apenas agora lhe saíra a palavra correcta da boca, ao murmurá-la isolada no meio daquela cozinha húmida, de ar não renovado. Não abrira ainda as gelosias. Esperava alguém, a qualquer instante, para preencher o seu vazio e se sentar a seu lado, na poltrona amarelo cádmio, que reservava sempre para outrem. De manhã, levantara-se mais cedo para se por mais "bonito". Com gestos duros, dos músculos entorpecidos e desabituados a tal ginástica, espalhara um creme qualquer, que tornara a pele mais lustrosa e corada. Não tanto pelo creme mas pelos movimentos, que activaram os vasos sanguíneos. De qualquer modo o resultado agradou-lhe. Com mais cor e mais genica, sorria no único momento do dia em que via a sua cara. O cabelo há muito tempo que caíra. Mas não o preocupa. Preocupa-o sim aquela espera desassossegada, a incerteza. “Chegará alguém?” Hirto, permanece a olhar para o relógio de cuco, ainda de mecanismo afinadíssimo (o que já não se pode dizer do cuco que da ultima vez que saíra já não voltara a entrar e permanecia intrépido de goela muda e aberta), onde se vislumbram as onze horas e sete minutos. “Chegará alguém?”.

2 comentários:

Maria das Mercês disse...

Bom começo, com "suspense" por uma pessoa mais que virá ou não; e boa descrição de personagem e espaço. Viste? Ó pra mim a comentar outra vez!

Susana disse...

Ricky, só comento agora pk quando sou eu a escrever a seguir fico sempre sem saber k dizer e mto stressada a pensar como continuar... ;o)
Excelente começo. Gostei da caracterização da personagem, do suspense da espera. Escreves bem, jovem!