domingo, 18 de maio de 2008

A espera desassossegava-o. Ao fim de 20 minutos a bater com as pontas dos dedos, ritmadamente, no braço da cadeira de palhinha, o seu coração disparou ao som estridente da campainha. Levantou-se de um pulo e avançou atabalhoadamente para o intercomunicador. Uma jovial voz masculina anunciou "Correio!". "Ora esta, por onde anda a D. Palmira para não abrir a porta ao carteiro?", o incómodo pela falha da porteira era superado pelo tamanho da decepção que se lhe estampara no rosto.
Arrastou-se de tédio a abrir as gelosias. Maquinalmente, pôs ao lume uma chaleira e numa caneca verde-garrafa duas colheres de cevada Pensal. Bebeu de rosto próximo à janela, grossas gotas de chuva miravam-no do outro lado do vidro, deixando-se escorrer. Lembrou-se de quando esta espera não existia. De quando estar só era o modelo de vida que professava com gosto e altivez. Procurou, no arquivo da memória, qual o momento exacto em que a altivez passara a queixume.
Sentou-se novamente. À espera. O peso da espera a roubar-lhe gradualmente a genica. Amorfo. Pronunciou as sílabas que o papel de parede lhe devolveu estranhas. É da hora, 11 horas e quarenta e dois minutos. "Chegará alguém?".

3 comentários:

johnsilva disse...

Está-me a parecer interessante este desassossego em que a criatura está mergulhada. Gostei bastante destas duas primeiras pinceladas.

Maria das Mercês disse...

Susana, continuaste muito bem a caracterização iniciado pelo Ricardo. Gostei das imagens que criaste. E o suspense está bom!

Ricardo disse...

eu diria mais...gostei mesmo. muito coerente, muito "suspenso".:)bem seguro. aumentaste bem a expectativa.