sexta-feira, 7 de março de 2008

Meus amigos

Não há mais nada a fazer. Tentei de tudo: dúvidas dissolvidas em chá verde, papel cravado de rimas fáceis, madrigais, sinos de vento. Cheguei a acender velas e estive tão perto, tão perto de acreditar.
Mas vocês já me vão conhecendo. Nunca me dei com vitórias, não faço parte desse grupo de gente contente. Gosto da renúncia, fecho as persianas quando o dia está ainda a pique, sempre achei que a desistência abre os melhores caminhos. Que nos faz ganhar tempo e memória das coisas. Não interessa a ninguém se sou o corpo que parte ou o corpo que fica. Oscilamos toda a vida entre as duas condições. Mas sinto-me feliz, sabe deus como me sinto feliz, por conseguir, finalmente, deixar de tropeçar nas palavras que esqueço fora do sítio, de ouvir o assobio do carteiro às dez da manhã, de sentir o tempo a anestesiar com o cheiro da fábrica, de ver, pela janela do escritório, enquanto bebo um café apressado, as crianças, ferozes, a chutarem a bola contra as paredes da escola, avisando que já perceberam que viver não está para brincadeiras.
As horas certas passaram por aqui há muito. Juro-vos, não há mais nada a fazer.
Estive a um passo de conseguir. Mas perdi, felizmente, perdi.

Luísa
Dois dias depois, ele foi encontrado no chão, de cabeça para baixo, junto ao piano. Não se sabe se bebeu ou não o copo. Sabe-se apenas que quando foi encontrado estava com uma coleira à volta do pescoço. Dizem as almas mais poéticas (e perversas) que, depois de ter perdido a rapariga, estava com medo de se perder de si próprio.

quarta-feira, 5 de março de 2008



De súbito, algo pareceu mudar nela. Baixou os braços, retraiu o pescoço, dilatou as narinas que fremiam. Captara por segundos uma doce fragrância, mistura de flores e frutos, sereno, terra húmida e infância esquecida. Procurou inspirar os restícios daquele hálito sublime e rodopiou sobre si mesma em busca de mais, de senti-lo em toda a sua plenitude. Entorpecida, arriscou uns passos hesitantes. Sentiu-se sugada e deixou-se ir. Já não se tratava duma mera fuga fictícia eivada de romantismo, Marylin Manson de trazer pela trela, mas dum movimento acossado, perseguido. Sentiu asco pela coleira sebosa que trazia, quase vomitou. Num impulso de raiva deu balanço ao corpo e atirou-a para longe. Os seus passos tornaram-se menos titubeantes, mais rápidos e enérgicos e ela soube que tinha de voltar a correr e fazê-lo dia e noite. Sentiu-se forte e segura, apercebendo-se de que aquela paisagem mergulhada em sombras a aninhava nos seus braços noctívagos. A cidade ali começava a minguar dando lugar a descampados cada vez maiores, a edifícios solitários que se iam perdendo uns dos outros. Assombrada pelo burburinho das árvores e por mil ruídos desconhecidos, soube que se queria sempre inebriada por essa doçura que a afagava.

Ela nunca tinha saído da grande cidade.
Filha, neta e bisneta das suas ruas, dos cafés e esplanadas, do tráfego ensurdecedor à hora de ponta, devia porém as suas origens a um casal de camponeses migrantes em busca de melhor vida.
Mas o campo era algo abstracto que ela não quis nunca conhecer. Calculou naquele instante que era o campo aquela débil aragem protectora, estranhamente familiar. E à medida que o dia foi emergindo dum horizonte não ornado de agulhas como o que conhecia, mas rematado pelas formas sinuosas e gentis de montes e vales, pareceu-lhe ser parte integrante da paisagem como se tivesse ali vivido toda a vida. Do seu lado esquerdo aproximava-se um portão velho e antes que se cruzassem segredara a si mesmo a data que o encimava, 1785. Isso não a perturbou sequer. À medida que avançava, a grande cidade ia-se tornando em algo abstracto que ela não quis nunca conhecer.


O ímpeto abrandou. Qualquer coisa o fez estacar. Não apenas a lentidão do elevador que subia a gemer nos cabos. Um pensamento barrava-lhe o caminho. Olhou a coleira nova. Recuou dois passos, três. Voltou a abrir a porta de casa. Dirigiu-se ao piano. Pelo caminho pisou um papel amarrotado, agora sem importância. E lá estava, sobre três teclas. Um copo cheio.

terça-feira, 4 de março de 2008

Quando ele regressou, o odor da ausência dela já se tinha espalhado pela casa. Nem precisou de a chamar. Em cima do piano, uma folha de papel tremeluzia. Reconheceu imediatamente a grafia dela, leu os desenhos das palavras como se desvendasse uma tela. E bastou um momento de nada, menos que um segundo, para sentir a explosão. Mesmo sabendo que haveria de rebentar assim, um dia, não estava preparado. Nunca se está. Não há trela que nos prenda, não há corda que nos capture, meu amor, e a minha mão arde pelo nada, nada, em que está a segurar.
De forças estilhaçadas, tombou mansamente até ao chão, um fardo negro, uma alma inerte. Aí ficou até que o dia deixou de espalhar quadrados de luz pelo soalho.
Antes de sair, foi até ao quarto e agarrou numa nova trela. O gesto rápido, como um voo rasante de morcego, era prenúncio do que não iria mais reprimir.

Do lado da noite, ela pressentiu o bater das asas dele e voltou a estremecer. Ofegante, abriu os braços, ofereceu o pescoço e esperou. Já adivinhava o clangor da trela, já desejava o sacão da coleira, já saboreava o desejo dele. De braços abertos, esperou.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Assim ele a deixasse ir! Assim ele compreendesse a falta que ela sentia de sentir falta, ela conseguisse expressar o vazio que é não ter vazio, a solidão de nunca estar só.
Olhava-o com o olhar ávido e húmido da manhã que vai ser dia, nem tarde nem cedo, apenas dia redondo de sol. Encontrou no rosto dele a inquietação fria de quem pressente a mudança mas resiste a abandonar a caverna por medo da luz. Já estava habituada àquele olhar cego do hábito, agora mais turvo, ainda mais insuportável. Nada diria. Esperaria que ele saísse. Deixar-lhe ia um bilhete: “Meu amor, andarei fugida de ti. Procura-me nos baldios se me quiseres encontrar. Deixo-te a minha infância, prometo-te uma nova idade. Levo a coleira para que lhe sintas o cheiro; para que me sinta gazela. Espero-te onde ainda não nos conhecemos.” Enrolou a coleira na mão, como se fosse uma corda para trepar muros, um chicote para fustigar perigos. E saiu.
O ar fresco da manhã despertou-lhe os sentidos. Algo por dentro da pele, no seu sangue, nos seus ossos, exigia vertigem, velocidade. Reivindicava embriaguez. Desatou a correr, alerta como nunca, orelhas hirtas, pálpebras duras, dentes molhados. Voltava a pertencer à tribo perdida das caçadoras. Tal como elas, independente. Igualmente exposta. Sempre vulnerável. Apertava na mão a coleira para não se esquecer daquela parcela rija do passado. Queria completar o ciclo do amor: deslumbramento, entrega, obediência, rotina, desencanto, revolta, fuga. Agora era o momento da perseguição. À medida que se afastava dos lugares de estimação sentia-se borrar a paisagem citadina com as cores fortes de uma paixão guerreira que outras antes dela tinham sentido, muitas reprimido, quase nenhumas libertado. De vez em quando parava para impregnar um passeio, uma cadeira de esplanada, um banco de jardim, com o aroma forte da coleira. Ansiava pela captura.
No fim do dia ela já tinha chegado ao lado nocturno da cidade. Outras luzes, as mesmas regras. Olhou em volta e estremeceu.

domingo, 2 de março de 2008



Aquele riso ameninado emudeceu-o. Sim, era ele o cativo, daquela pele branca e macia cujo odor o levava ao Nirvana, daqueles olhos grandes, a um tempo meigos, a outro pérfidos. Ele era o que segurava a ponta da trela, a sua existência a isso se resumia. Não sabia dizer o que tinha sido antes, antes de haver trela, antes de haver olhos assim. E não via o que poderia ser sem ser isso.

Ela continuava a deslizar os dedos pelo seu tronco e a rir baixinho. Sabia o poder que detinha ao deixar-se acorrentar. Durante meses tinha-se alimentado assim, dessa relação estranha e intensa, de ser um animal de estimação. Mas tinha alma e consciência, faltava-lhe uma característica fidelidade canina. Era mais gata. E o seu ser tinha entrado no cio.

Não lhe aborrecia a coleira nem estava farta da trela. Simplesmente o que amanhecia nela era uma vontade enorme de sentir saudades dele. De estar só, ficticiamente abandonada. De fechar os olhos e ter dificuldades de recordar o seu perfil nítido, de se escoar na sombra do tempo o mantra aflito no ouvido dela. Antecipava o desespero que se avizinharia nesse momento. Precisava dele. Precisava de estar longe dele. De se encontrar, no meio de uma multidão, acompanhada por nada mais que aquela sensação doce, de saber que há alguém, algures, que nos ama. Como expressar isto sem que, do outro lado, soasse a rejeição? Experimentava então, esse tom infantil.

“Em cima do piano...” e deixou cair a melodia enquanto abria os seus grandes olhos para ele. Haveria de voltar ronronante.

sábado, 1 de março de 2008

Ele perguntou o que ela queria dizer, e ela permaneceu silenciosa, a sorrir e a brincar com a sua trela. Ele insistiu, fez-lhe festinhas nas orelhas, exactamente como ela gostava, fez-lhe renovadas juras de amor e de obediência, mas ela nada respondeu e deixou-se adormecer tranquila nos seus braços, como sempre, como se nada tivesse alterado a rotina que partilhavam.
Na manhã seguinte, quando ela acordou apercebeu-se que ele estava acordado a olhá-la, e antes que ele pudesse dizer alguma coisa, começou a cantar muito devagarinho, enquanto percorria o tronco dele com as pontas dos dedos:
"Em cima do piano,
Está um copo com veneno,
Quem bebeu...
Morreu..."
E desatou a rir com uma alegria infantil que ele não lhe conhecia.