sábado, 22 de março de 2008

-Não se preocupe que não é preciso… aliás existem outras coisas gravíssimas que me preocupam muito mais.
- O que é que o pode preocupar? Os seus filhos estão a dar-lhe problemas na escola? Coriscos dos rapazes, hoje em dia só querem facilidades…
- Bem longe disso, minha senhora… o que me preocupa é que a senhora foi chamada aqui para falar sobre a morte do Sr. Silva, que, tanto quanto eu julgava saber, e foi confirmado por este relatório de autópsia que acabaram de me entregar, morreu de causas naturais, parece que teve um enfarte. O problema é que o teve enquanto conduzia um tractor que levava, num atrelado, um sino roubado da igreja mesmo ao lado da sua casa há 3 dias.
- Um sino?
- Sim, e a caixa das esmolas também… Mas agora dou comigo com uma história deveras estranha em mãos, que envolve pelo menos duas senhoras desaparecidas, danos em propriedade privada, a morte de um cão, um senhor árabe que está à minha espera no meu gabinete e um psiquiatra a precisar de férias e que também não consegue descortinar o que se passa. Está a perceber o meu problema?
- Francamente não… se não são os seus filhos, será a sua mulher? Ou problemas com a bebida, talvez? O senhor parece-me que tem uma imaginação demasiado viva. O que é que o meu Chico poderia estar a fazer com o sino da igreja num atrelado de um tractor? Não faz nenhum sentido. Eu tinha os polícias em boa conta…
- Agora é que passou das marcas! Eu não sou polícia, sou inspector da Judiciária! Demonstre algum respeito, caramba! E agora, vamos começar do princípio outra vez: o que me sabe dizer sobre a morte do Sr. Silva?

sexta-feira, 21 de março de 2008

“Oh Sr. Inspector, com franqueza, agora está a ir longe demais. Arranje-me outro copo de água e mande diminuir estas luzes todas, que até estou a ficar com calor. Está para aqui uma viúva atormentada e o senhor vem-me com suspeitas de adultério?! Santa paciência, era só o que me faltava! Não era meu amante, não senhor, esse Pipic era a personagem principal do livro que o meu marido andava a ler. Mas não está bem a ver o tormento que isso foi. Ah pois é! Está de testa franzida? Julga o quê? O meu Chico era muito dado à leitura, dizia a minha falecida sogra que o mal dele foi sempre esse, aquilo depois abriu-lhe muito a vontade de descobrir a vida. E deu no que o Sr. Inspector já sabe, esta mania das descobertas… Às vezes lia até entre duas mudanças de pneus, veja lá! Chegava a fechar a garagem mais cedo por causa disso, e uma pessoa a passar tantas necessidades! Andava terrível, não queira saber. Os clientes queixavam-se. Não se calava com essa criatura, esse tal piquenique, ou como raio se chamava o homem, parece que era escritor, ou tradutor, ou uma coisa desse género, credo, já ninguém o ouvia. Olhe que às vezes me parecia que não estava no seu juízo perfeito! Andava tão obcecado que se punha a falar desse chinês, ou árabe, já nem sei, como se vivesse ali connosco. Por isso é que há-de aparecer aí algures na sua investigação. Não me admirava nada que me arranjassem algum enredo com o fulano, é que não me admirava mesmo, isto há gente para tudo. Até para nos tramar com personagens de histórias. Mas é como lhe digo. Se quiser, trago-lhe o livro da próxima vez, há-de estar para lá nas coisinhas dele, meu rico homem que nunca chegou a saber o fim da história.”

quarta-feira, 19 de março de 2008

O tradutor curvou-se para o apanhar mas o envelope pareceu recuar. Yar-rham soergueu-se surpreendido. A ponta do envelope voltou a aparecer e ele, fintando a surpresa, apressou-se a pôr-lhe imediatamente o pé em cima, puxando para si o sobrescrito ao mesmo tempo que abria a porta de sopetão.

“Ah, o senhor estava em casa!?” balbuciou Lucas, o paquete da editora Campo de Malmequeres e Alguns Ramos de Letras” para a qual traduzira dois ou três livros. E traduzia aquela estopada. “Deixaram-lhe isso na editora e como parece que é urgente mandaram-me vir cá.”
Já o paquete se afastava quando ouviu bradar pelo seu nome. Voltou atrás. O tradutor estendeu-lhe o envelope aberto. “Não há nada aqui dentro. Nem dentro nem fora. Quem me mandou isto?”. O moço encolheu os ombros. “Alguma fã”, arriscou. “Fã? Tradutor tem lá fãs. Achas –me alguma estrela de rock ou quê?” Lucas corou, gaguejou um pedido de desculpas e afastou-se mirando o envelope. Yar-rham voltou a entrar para vestir o casaco e nessa altura viu um papel no chão. Dobrado em quarto. Desdobrou-o. Em cada uma das dobras encontrou um grupo de letras escritas numa máquina com a fita gasta. Deu umas voltas ao papel. “Um enigma, hem?” murmurou “Charadas é cá comigo.” Não foi preciso pensar muito. As letras formavam uma palavra apenas: idiota.


“Ó diabo, ó diabo!” O inspector herdou imediatamente os tiques do detective de serviço. Decididamente estavam todos a ficar nervosos. "Minha senhora, disse o inspector com um quê de triunfo na voz. “o nome Yar-rham Catrapar-rham Al-Pipik diz-lhe alguma coisa?"
A mulher benzeu-se. "O senhor professor está mas é a pegar na fala. Não me diga que bebeu alguma coisinha ao almoço. O meu santo marido…"
“ Minha Senhora” – o inspector parecia disposto a ignorar qualquer insulto – tudo me leva a crer que a senhora e este não sei quê Pipic são amantes.!

terça-feira, 18 de março de 2008


“D. Laura fungou mais um pouco, murmurando «coitadinhos» e «pobrezinhos» com um ar compungido. Do lado de lá do vidro, o psiquiatra tomava notas com ar de sacrifício, apenas observado por si próprio no reflexo do espelho. Na sala, o inspector levantava os olhos para as placas de esferovite amarelado do tecto e pensava se deveria ou não fazer uma acareação. Trazer a vizinhança e confrontá-la com o raio da velha, que não se demovia da posição de viúva chorosa; espertalhona é o que ela era, parecia um muro”…

Aquilo foi demais para Yar-rham Catrapar-rham Al-Pipik. Estacou de tal forma que até enrugou o papel. Muro?

أنّ يحميني قسم من ضرب هم حارّة من الصحراء, من الجدر أنّ يسقط ومن النساء قاتلة

Não, não podia colocar isto no texto. Uma coisa era melhorar o original, limpar as incongruências, enfim, salvar aquele livro de ser uma estopada; outra coisa era começar a debitar texto próprio. Mas comparar aquela mulher a um muro, elevá-la a uma qualidade que não possuía, era demais para Yar-rham!

“Um raspão seco na porta da sala de interrogatório interrompeu as divagações do inspector. Levantou-se, olhando de soslaio para D. Laura, abriu a porta e deu de caras com os tiques nervosos do detective de serviço. O homem gesticulava enquanto lhe estendia um papel:
— Desculpe, mas é que chegou este relatoriozinho, achei que podia ser importante… hum… pode ser que…
— Está bem, homem, deixe cá ver. — os modos bruscos do inspector puseram fim às hesitações do detective, que recuou até embater no outro lado do estreito corredor. — Ó diabo, isto muda tudo de figura!”.

Yar-rham decidiu fazer uma pausa. Ia sair um pouco, beber uma limonada, talvez até passar naquele bar onde a tinha visto pela última vez. A cidade ondulava sob o calor da tarde, mas sempre era melhor do que ficar ali acompanhado por aquele texto.
Quando já estava quase pronto para sair, um raspão seco na porta da rua fê-lo parar. Por baixo da porta surgia a mancha branca de um envelope.

segunda-feira, 17 de março de 2008

عفوا ، الطبيب ، لانني لا اقول شيئا من هذا القبيل. اذا كنت الذهاب الى اساءة تفسير كلماتي ، نضع حدا لهذه المحادثة الحق الآن ، وانني لن تساعدك على ايجاد رجل.


Yar-rham Catrapar-rham Al-Pipik deteve-se a olhar para a mancha negra das palavras sem as ver na unicidade que lhes conferia sentido. Não era a primeira vez que isto lhe acontecia. Tentou disciplinar-se. Tinha apenas 15 dias para terminar o trabalho e ainda lhe faltavam 50 páginas – um empreendimento duro para qualquer tradutor. Voltou ao excerto onde tinha emperrado. António?! Três amantes?! Então o homem não era Chico?! De onde aparecia aquele nome? E não tinha tido apenas duas amantes?! O que lhe teria escapado na leitura?

Regressou a páginas anteriores, relendo-as pela sétima vez, em busca do pormenor incógnito na identidade do morto e da vida sexual que levara. Deteve-se novamente nas linhas que mais demorara a traduzir. Dera com elas na véspera, como quem embate contra um muro de pele quente num deserto de afectos. Sempre sentira uma atracção especial por muros, não sabia porquê; imaginava-os como celas abertas e esconderijos expostos – espaços inevitáveis no sonho de quem quer ser encontrado e aprisionado. O muro de pele quente com que embatera estava coberto por um vestido coleante e deslocava-se com um par de pernas raras enroladas nas notas do tango argentino, oblíquas no modo como se dispunham de encontro às do Silva. Revia de novo o corpo de Maria, insensato e sugestivo, abandonando-se nos braços do amante com quem dançava naquele fim de tarde, fingindo uma indiferença impossível na docilidade com que se deixava arrastar, torcer, lançar em largos passos de tango, de vento, de carne.
Yarrham lutou contra o pensamento divagante que aquela visão lhe causava – era um tradutor profissional, com um trabalho de responsabilidade entre mãos. Prosseguiu:

اذا كانت ستعقد قضائيا المسؤولين عن عملية القتل انطونيو


Mas a dupla identidade do marido de Laura e o espectro da terceira amante faziam-no regressar uma e outra vez àquele tempo diegético do crepúsculo argentino, em que Maria e Silva dançavam numa rua vazia, emparedados nas sombras angulosas de edifícios nus, dirigindo-se, sem o saberem, para as arestas aguçadas do ciúme. Também ele os sentira (desejo e ciúme); também ele o cometera. Pensou o nome. Arrefecido pela palavra retornou à protecção da língua portuguesa e à dureza do seu ofício. Traduziu-a num exercício de descontracção. Crime. Ler uma língua estrangeira era uma segurança contra a sua própria mente, uma fuga dos caminhos que o poderiam fazer regressar ao desespero do passado. Distraía-se com as vidas de papel que transferia para a sua língua materna. Deambulou pelo leque de sinónimos: transgressão, delito, pecado. Não: teria de especificar. Assassínio.

Apeteceu-lhe matar o autor daquela novela. Voltar atrás e chamar ao morto José, João, Eliandro Benquisto, qualquer treta que não variasse com o voltar das páginas. Eliminar a referência à terceira amante. Devorar o original e vomitá-lo mais limpo, mais sujo, mas obra sua. Sua! Pôr o falecido de saltos altos a dançar o tango ao som do hip-hop com uma Maria descalça, bailarina de dança do ventre. Em vez disso, voltou à leitura. Talvez as linhas seguintes trouxessem alguma luz à confusão instalada com a presença daquele par de intrusos:

O interrogatório prosseguia no quarto iluminado por uma lâmpada fluorescente.
- Tão felizes fomos, Senhor Engenheiro!
- D. Laura, eu…
- Felizes, sim senhor. Dava tudo para o ter de novo aqui. Aqui mesmo, na própria da cadeira onde o Senhor Arquitecto se encontra sentado, ai tão bem que ele ficava sentadinho nessa cadeirinha o pobrezinho, agora todo mortinho que nem posso levar à ideia os bichos a comerem-lhe o bigode, tanto que ele prezava o bigodinho, coitadinho. Lembro-me de quando ele a comprou, a cadeirinha, como se fosse ontem. A empregada da loja a fazer-lhe olhinhos, a dengosa, mulheres sem vergonha é o que são todas elas, e ele muito direito – era um homem com uma boa espinha – a pensar (eu sempre lia os pensamentos dele): “não há duas sem três”!

domingo, 16 de março de 2008

Protegido pelo vidro escurecido, acompanhava sem ser visto o interrogatório de Laura das Dores. Observei-lhe os tiques no queixo enquanto falava e o nervoso que transparecia na inconstância do olhar. O seu discurso parecia querer ser mais inocente e vulgar do que eu lhe estava a adivinhar na mente, apesar disso parecia acreditar fidedignamente no que dizia.
Enquanto psiquiatra, pronunciar-me-ia sobre se a D. Laura deveria ou não ser considerada imputável pela morte de António Silva, o falecido marido, em circunstâncias bastante bizarras e eu não me consigo decidir. Sei que não me devo deixar levar pelo instinto e procurar factos sólidos que sustentem a minha posição, mas esta tipa não me parece nada parva.
O inspector da Polícia Judiciária continuava a sua linha de interrogatório que passava, nesta fase, por deixá-la falar. Mais tarde viriam as acusações e depois de ela se enervar, com sorte, talvez cometesse alguma imprudência, deixasse escapar um qualquer pormenor. Era a metodologia do costume, mas ela já tinha conseguido convencer o agente da sua inocência, por trás daquela máscara de esposa dedicada e dona de casa exemplar na sua conduta. A mim ninguém me tirava que ela tinha varrido o marido do mapa, junto com o cão e as três presumiveis amantes, todas desaparecidas ao longo dos anos.
Por um instante deixei de olhar através do vidro, para pousar o olhar no meu próprio reflexo. O que estava eu aqui a fazer? Não estaria a projectar os meus próprios demónios numa mulher inofensiva? Ao tempo que andava a prometer-me fechar o consultório e tirar umas férias prolongadas, mas metia-se sempre uma coisa e depois outra...
Agora este caso. Não, não me consigo manter objectivo neste caso. Apre!

sábado, 15 de março de 2008

- Então pretende prestar declarações? Tem a certeza?
- Sim, Sr. Dr., vou-lhe contar toda a verdade.
- Então, conte lá tudo o que se relaciona com a morte do Sr. Silva…
- Pois, Sr. Dr., vou-lhe contar tudo desde o princípio: eu casei há quase 20 anos… foi muito bonito, um casamento por amor, o Chico era o melhor mecânico da freguesia, tínhamos uma casa muito jeitosa…
- D. Laura, vamos lá a ver, o princípio do seu casamento não me parece muito relevante para o crime em questão…
- Pelo contrário, Sr. Dr., foi quando tudo começou, foi na altura do meu casamento. Como eu ia a dizer, tínhamos uma casa muito jeitosa, e eu nem tinha de trabalhar fora, e foi aí que começaram as invejas e as maledicências. Passados uns 6 meses de estarmos casados começaram a dizer que ele andava metido com a Júlia da mercearia. É claro que eu nunca acreditei mas, à cautela, tive uma conversa séria com a Júlia e depois… quer-se dizer, não se pode dizer que a culpa seja minha se ela se mudou sem se despedir de ninguém e nunca mais deu notícias, não acha? Enfim… Tivemos mais uns tempos sem problemas mas voltaram as conversas da vizinhança, desta segunda vez os boatos foram com a Maria, viúva do Aníbal. Fui ter outra conversa privada, séria, de mulher para mulher, falei-lhe mesmo ao coração, mas ela não queria mudar para longe… A coisa demorou mais uns tempos para se resolver, primeiro houve uns miúdos que lhe partiram os vidros das janelas, por acaso até lhe digo que os coriscos nunca foram apanhados, depois o cão dela que deve de ter comido qualquer coisa estragada e acabou por se finar, coitadinho, com algum sofrimento até…
- Mas a senhora está a dizer-me que obrigou essas senhoras a mudarem de casa? Que até matou um cão?
- Desculpe Sr. Dr., que eu não disse nada disso! Se vai fazer leituras erradas das minhas conversas ficamos já por aqui e não o ajudo a esclarecer a morte do homem!