quarta-feira, 30 de abril de 2008

PEÇA PARA UM ACTO SÓ


Na esquerda alta, canapé vermelho e almofadas grandes no chão; ao centro alto, mesa de jantar comprida e três cadeiras; na direita alta, porta; na direita baixa, escadote de cinco degraus; na esquerda baixa, porta; centro baixo vazio. Iluminação indirecta que se acenderá de acordo com as movimentações das personagens.

Acto I – Cena I
Jovem de sexo masculino entra pela esquerda baixa e senta-se no escadote.

Jovem (para o público, de forma confidente, mas acre) – Disseram-me para esperar aqui, que não demoravam, que tinham coisas muito importantes para me mostrar… Duvido! É que duvido mesmo! Acham que conseguem demonstrar a… vamos lá a pensar um pouco… a perpetuidade da alma humana ou… esta é boa… a teoria da expansão do universo aqui, num ambiente tão burguês e num dia tão prosaico como o de hoje. Aliás…

Jovem é interrompido pela entrada de uma criança do sexo feminino que se lhe dirige de forma resoluta e que fica parada a mirá-lo.

Jovem (incrédulo) – És tu?

terça-feira, 29 de abril de 2008

Continua a chover… há uma semana que chove sem parar.
Tomei decisões: evoluir nas escolhas musicais e trocar de casa, apesar de a obra no apartamento vizinho ter parado. Depois logo vejo o que faça, agora preciso do inesperado.
A minha aranha apareceu morta. Causas naturais, ao que me parece. Senti-me como se tivesse perdido uma filha.
Vou dedicar-me à botânica. Ao estudo das plantas apiáceas. Uma família de plantas onde se encaixam a salsa e a cicuta parece-me interessante. E filosófico.
A cicuta pode vir a ser útil. Nunca se sabe.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

teodora
disse-lhe ele
com ternura e murmurou de novo o nome dela como um sopro


teodora



mata-me
quero ser
teu

e ela negra



premiou-o
com uma esto-
cada


que estopada

domingo, 27 de abril de 2008

Decididamente este homem era diferente. Não se assustava com o facto de ela ter uma viúva-negra e, mais estranho ainda, não a estranhava a ela. Parecia, pelo contrário, desejar a dupla. De predadora pressentia ter passado a potencial presa. Uma impressão desconhecida nasceu-lhe nas pontas dos dedos dos pés.
Contrariamente à sua natureza intrínseca, deu por si a vacilar, acobardou-se, desculpou-se com uma máquina de roupa que precisava de estender e não havia tempo para reuniões de condónimos extemporâneas. Assim que fechou a porta com estrondo na cara de Antão, arrependeu-se. Culpou-se. A culpa, sempre a mesma inexorável culpa que a acometia a cada três passos.

A viúva olhava-a com espanto. Ou pelo menos assim ela julgou. Provavelmente seria o seu próprio espanto reflectido. Objectivamente a aranha não poderia compreender o que se tinha passado nos últimos minutos. Mas compreendia-a a ela. Nem sempre tinha sido assim. Nos primeiros meses de convívio eram estranhas, uma habitando um espaço confinado dentro do espaço confinado da outra. Teodora percebeu que nunca seriam verdadeiramente companheiras enquanto tal fosse a ordem espacial, pelo que se decidiu a pedir ao veterinário que retirasse as glandes venenosas à viúva-negra. Nessa noite, particularmente quente e húmida, teve um estranho sonho, que não conseguia recordar na totalidade. Acordou encharcada de suor e lascívia. A aranha, agora solta pela casa, tinha-se vindo aninhar aos pés da cama.

A partir desse dia a relação de Teodora com os homens havia-se transformado radicalmente. Ela não conseguia deixar de imaginar que as glandes venenosas retiradas à viúva, se tinham impregnado nela própria.
Antão parecia imune ao seu feitiço….e fora o único até agora de quem a aranha não se tinha aproximado. Estranha coincidência pensou. “ Ele é tratador de animais e talvez já tenha sido mordido por uma aranha e conservado algum veneno”. Algo de errado se passava. Desta vez a predilecção pelo homem não estava do lado da aranha, mas dela. Era já a sua segunda longa tarde de meditação, sobre o que fazer, mas nada. O vazio. A sua infalibilidade, como desvantagem nunca lhe permitira desenvolver soluções de recurso. Encontrava-se isolada, perdida, sabendo a premência da tomada de uma decisão. No dia seguinte arremetida de uma sensação de derrota arrumou as suas vestes negras que utilizava durante todo o ano, decidida a sair com destino à casa de família. A aranha força-a nitidamente a essa decisão. Senão, porque choraria? Mas algo contrariaria a sua apressada e sofrida decisão. Antão tinha dedicado a sua última semana a espiá-la, o que já fazia desde que elas se tinham mudado para aquele prédio, mas agora não só com intuito de estudar o comportamento de aracnídeos em ambiente doméstico, mas de deliciar-se também com o corpo dele e da vizinha.

- Olá, bom dia! Com estás?
- Ah…..és tu! Olá, bom dia! Esperava outra pessoa, desculpa. Está tudo bem?
- Sim, obrigado. Vejo-te atarefada com essas caixas. Era só para saber se poderíamos fazer uma reunião extraordinária de condóminos.
- Hã?! Mais ainda? Não sei se posso.

A desculpa tinha sido inventada no último minuto, mas parecia perfeita e o motivo muito forte. A sua simpatia por Antão levá-la-ia a atrasar a sua saída? Tinha de o fazer! Antão nunca teria outra hipótese de estudar um outro animal doméstico de tão perto. Consigo as aranhas morriam passado pouco tempo de as levar para casa. E nunca descobrira porquê. A sua investigação estava adiantada mas precisava de continuidade. Por outro lado, a mulher tinha sido a primeira a expandir e revelar toda a sua lascívia. E ele gostou disso. Não queria perder essa sensação. Estava mesmo determinado a ampliá-la e levá-la por muito tempo. Assim, deu-se o momento de planear e jogar por antecipação…

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Pois …. Teodora era malícia e meditação, introspecção e acção. E depois… depois sentia-se culpada. Esta era a sua emoção recorrente: culpa de tudo, culpa de nada, culpa por ter tentado, culpa por ter desistido. Indecisão e dúvida pautavam-lhe os dias, às vezes dava por si a fazer festas à aranha e a apertar-lhe o corpo em demasia. Parecia que ela era o único ser que realmente a entendia, mais até do que ela a si mesma… pois… na verdade, não se entendia nada de nada. Outra dúvida era se às vezes as ideias que lhe surgiam, nasciam da sua própria cabeça se da outra, daquela aranha negra e voluptuosa…. Imensa…

A solidão faz nascer espuma nos cabelos
a imaginação viaja demais num corpo só.

Aquele flash televisivo através da porta não tinha sido o primeiro, nem seria com certeza o último. Alimentavam-na os corpos da vizinhança à distância de uma porta entreaberta. Triste não é?

Antes do Antão, fora o Antero, antes de Antero, Aníbal (ela sempre tivera um certo fetiche pela letra A). Mas não nos percamos… nem de Teodora, mulher íntima, nem da sua arte de aproximação aos homens. Dúvidas assumidas, aproximava-se sempre daquela mesma maneira: primeira a aranha, seus dedos milenares acordando uma qualquer pele nua, depois ela, subtil, salvadora, sua intranquila timidez ajustada como uma máscara perfeita. Não era uma técnica vulgar, pois claro, e os homens, que na sua maioria sentiam aquele primeiro toque como a realização de uma inalcançável fantasia, fugiam dois segundos depois de abrirem os olhos.

Mas nem todos… nem todos.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Um profundo sentimento de culpa invadia-a. Remoía-se com a sua recorrente fuga para o excesso. Sabia que tinha de embargar o interminável matracar que irrompia do apartamento vizinho, mas não podia ter cedido à tentação. Apenas conseguiu vergar esta ideia quando se desvelou na corrente do rio da memória tudo o que havia sentido naquele primeiro encontro: “Sou Antão Barreto, o novo vizinho, biólogo de formação e tratador de animais do jardim zoológico de profissão.”

O leve mordiscar na orelha fez com que ele se contorcesse um pouco, o delicado deslizar face abaixo acentuou-lhe o movimento, a breve carícia nos lábios arrepiou-o, a suave pressão no queixo fez-lhe suspirar, o sublime toque bem no meio do peito desabrochou-lhe o arfar, o húmido galgar sobre um dos mamilos levantou-lhe todos os pêlos do corpo, a rápida chegada ao umbigo despertou-o do já inquieto sono.

Não foram mais de dois os segundos em que ficaram, de olhos bem abertos, a se contemplar. O coração precipitou-se em arrítmicas pulsações, todos os outros músculos enrijeceram até que os seus pulmões fizeram brotar um pavoroso grito. O prédio inteiro apeou-se da cama e mesmo a viúva-negra, que observava a partir do umbigo, foi tomada pelo susto.

A porta escancarada do apartamento deixava ver Teodora languidamente estendida na sua chaise longue, com as vergonhas cobertas por folhas – qual Eva a se preparar para regressar ao Paraíso – e os pés acolchoados por umas crocs. Saboreava uma tosta intercalada com fiambre de peru, ouvia See You Naked e não havia pregado olho a noite inteira, só para ver o vizinho correr nu porta fora, enquanto gritava como o mais fervoroso Ateu quando se apercebe que acabou de beijar Deus. Ficou triste. Afinal foi pouco mais do que um flash aquela passagem pelo ecrã em que a sua porta se transformara e agora tinha de ir recolher a sua arranha de estimação, a quem as glandes venenosas haviam sido removidas.