quinta-feira, 8 de maio de 2008
quarta-feira, 7 de maio de 2008

Jovem – Oh avó, tu não estás mesmo aqui, percebes, isto não passa de mais uma ilusão da Igreja para nos fazer acreditar que…
Senhor dos Passos – Ah sim? E este espinho, é a fingir? E o sangue no meu pé, é sumo de tomate? Olhem que esta…
Avó (tenta pousar a mão no ombro do jovem, que se afasta) – Fé e amor, fé e amor!
Jovem – E o que mais? Extracto de caviar para a pele, pó de diamante para as unhas, manteiga de karité para o cabelo e um cartão VISA com «plafond» ilimitado. Tenham paciência! (afasta-se, aos gritos) Marília, onde estás?
Senhor dos Passos – Alguém tem aí um canivete? Ou uma faca de fruta? Também serve.
Avó senta-se no sofá, com ar pesarosamente pio. Jovem continua a procurar Marília. Senhor dos Passos permanece no chão, a escarafunchar no pé. Pela esquerda baixa, grupo de adolescentes e criança regressam, cantado e dançando um tema tipo Andrew Lloyd Webber. Colocam-se no centro do palco. O Senhor dos Passos fita-os abismado. O jovem não lhes presta muita atenção, pois está a falar ao telemóvel.
Grupo –
Ele não é quem diz ser!
Loucos, vocês não percebem,
temos muito a perder,
temos de o esmagar,
como o outro antes dele,
ele tem de morrer!
Pelo bem da nação, ele tem de morrer!
Tem de morrer, tem de morrer!!!”
Entra a tia, de punhal em riste e dirige-se ao jovem.
Tia – Tens de morrer! Sabes demasiado, tens de ser eliminado!
Jovem – Mas está tudo louco? Vim aqui porque me iam dizer e mostrar coisas importantes, nada vi, nada me disseram e agora tenho de morrer porque… ARGH!
Tia crava punhal no peito do jovem, que tomba lentamente para o chão. Grupo de jovens e criança pegam na cruz de Senhor dos Passos, deitam o jovem em cima e saem pela direita alta, cantarolando “Ele teve de morrer!”. Avó e tia seguem-nos. Todas as luzes se apagam, à excepção de foco roxo que incide sobre Senhor dos Passos, ainda sentado no chão a escarafunchar no pé.
Senhor dos Passos – Olhe, espere… ei, passe-me aí esse punhal!
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Jovem ai que tudo isto não me pode estar a acontecer
SP tenho sede
Jovem que lamuriento…posso saber o que fazes de pé coxinho e ainda por cima com esse peso todo às costas?
Entrou-me um espinho para o pé
Jovem Um espinho? Espera daqui a uma hora ou duas, que já vais ver o que te vai entrar para as mãos e para os pés…um espinho…não perdes por esperar
SPque dizes?
Jovem É isso mesmo que ouviste – cenas dos próximos capítulos. Leio a tv guia é o que é. A Paixão de Soraya, sexta feira às 22h
SP Sabes quem eu sou?
Jovem Claro. Toda a gente sabe e depois?
SP Então sabes que morri para te salvar
Jovem Vai contar essa a outro…eu não sou a minha avó…ela é que ia nessa cantilena. Morreste porque morreste, as pessoas morrem, sabias?
SP Morri mas ressuscitei
Jovem Ressuscitaste, ressuscitaste…e como é que nunca ninguém mais te viu
SP Fui para junto do Pai
Jovem Menino do papá, isso sim
SP Já vi que não acreditas na minha palavra. Vais ver como a tua avó acredita
Jovem A minha avó já morreu
SP Precisamente
Entra a avó também de pé coxinho
Jovem vó, mas tu não tinhas morrido?
SP E morri
Jovem Então faltaste à morte…chateavas-me por faltar às aulas e também tu afinal…
SP O senhor chamou-me
Jovem E vens assim sem mais nem menos? Quando estavas viva eras surda como uma porta. A gente chamava, chamava e tu nada
Jovem A voz do senhor é amor
JC Escuta jovem, amor.
Jovem Tá bem tá…tou a ouvir essa palavra de cinco em cinco minutos – sim, mor; não mor; vamos ao cinema mor; vamos ao café mor“; tens haxe, mor? Vó também te entrou um espinho para o pé?
Avó Não filho, caí nas escadas. Torci o pé e bati com a cabeça. Foi quando encontrei o senhor que me indicou o caminho da salvação
Jovem Devias andar sempre com o GPS na mala, assim não tinhas que falar com desconhecidos
Jovem (para o público) – Ah! Não me faltava mais nada!! Aturar miúdos cheios de acne… Digam-me vocês, o que terão estas hormonas aos saltos de essencial para me dizer?! (virando-se para o grupo) Hei! Crianças, não são horas de irem à caminha? Desamparem-me a loja que continuo à espera que chegue a Marília… talvez com ela consiga ter uma conversa decente!
(Os miúdos continuam ignorando o jovem, trocando sussurros e risadas entre si)
Jovem – Oi!! Tão surdos ou fazem-se?! Esta agora…
(Irrompe um toque estridente do relógio de menina colocado no pulso no jovem, os miúdos levantam-se, como autómatos, colocam-se em fila de frente para o público)
Adolescente 1 – Neste dia tão prosaico…
Adolescente 2 – …da alma te queríamos falar…
Adolescente 3 – … dos mundos, de Deus…
Adolescente 4 – … dos elfos, das fadas…
Adolescente 2 – … de magos e fariseus…
Adolescente 4 – … da sombra, da luz…
Adolescente 1 – … da morte, do nascer…
Adolescente 3 – … se tu ao menos quisesses saber!…
(Ouve-se novamente o mesmo toque, os adolescentes parecem acordar, riem-se e saem pela esquerda baixa, deixando o jovem só, sentado no escadote tombado, com um foco de luz azul incidindo sobre si)
Jovem (começa por gritar) – Estão loucos, todos loucos, juro-vos…
Desculpem lá, vocês, estarem aqui a assistir a esta cena, a perderem o vosso tempo… eu ainda é como o outro… não tenho verdadeiramente nada de importante para fazer… é que eu… (desolado) eu queria mesmo saber!...
As luzes baixam. Deixa de se ver a tia…um brilho rasante ao solo de cor vermelha ilumina agora o andar manco de dois pés não se desvendando o corpo. Um foco branco cega parcialmente a visão do jovem que se encontra no centro do palco, fortemente iluminado, e que compõe a roupa.
Jovem - Uma menina, Um manco…Que me queres dizer?….Queres que eu descubra o quê se nem sequer me deixas ver ou falar-te?
Os pés param e de mesmo ponto do cenário ouve-se o cantar dá letra de uma música cujos acordes são dedilhado numa viola.
Cantante - A musica não a conheces tu. Mas a letra revela-se-te incrivelmente fácil com se desde sempre a tivesses sabido de cor. A tua mãe não a cantou e tu nunca a ouviste no berço. Sim...é Madonna e é o do último ábum, gostas?
Jovem - Mas eu nem gosto de Madonna?!
Cantante - ehhhh....(e continua a cantar)
Jovem - Fazes-me ouvir uma música que eu canto sem conhecer. Mas que não esqueço. E não volto a repetir porque não gosto….Acompanha-me alguém que não conheço e afinamos os dois………Procuro-a mas mesmo manca esta pessoa, que ainda não percebi se mulher ou homem…..passeia-se pela sala escapando as minhas investidas……Ai carago!!! (bate com o joelho no escadote e tomba-o para o centro do palco, de onde tinha saído indo atrás dos pés - percurso livre).
Jovem (grita) - Não entendo, não vejo, não falo, nem percebo o que estou aqui a fazer.
Chamaram-me e põe-se a fazer entrar pessoas que não conheço….porque é que a Marília me chamou aqui…..?!
(Jovem confirma a mensagem antes recebida no telemóvel)
Jovem - Que raio.... Parece que estou à espera do médico mas numa casa ....de alguém que se mudou. A Marília tinha-se mudado……(dirige-se para a porta de cima, abre-a e espreita) …(chama gritando) Marília!!! (Fecha a porta.)
(A mulher cala-se. Ouve-se na direcção da porta de baixo um pequeno grupo distante, que se aproxima .)
Jovem - Ihhh, tamanha ingresia p'ra lá vem! 'Tou feito!
domingo, 4 de maio de 2008
O jovem vira as costas e deita-se na mesa de jantar, a falar com as cadeiras e os gatos, como se a tia não estivesse lá.
Jovem – Odeio-Te. Sem pontos, nem vírgulas, nem qualquer tipo de pausas. E desafio-Te! Vem cá, e diz-me olhos nos olhos que existes, planando omnipresente sobre o mais imperfeito dos mundos… Explica-me porque És Cruel. Explica-me! Queres brincar ao gato e ao rato? Queres???? Com mulheres cinza e púrpura? EU NÃO SOU UMA MARIONETE dos teus caprichos! Sou o dono da minha vida!
Tia – Cucu! Acho que ainda não percebeste bem, jovem…. Levanta a camisa por favor…Não tenhas pressa… mas levanta-a, por favor. (sorri)
O jovem fica algo perplexo, mas obedece e começa a levantar a camisa.
Tia – Já tás a ver o umbigo???? Tás? (o jovem anui com a cabeça) Boa!... Agora passa essa fase por favor… (fala lentamente, como se soletrasse) o teu umbigo não é o centro do mundo…muito menos os teus dramas existenciais… Lamento. Agora vamos avançar para as coisas práticas, please? (Abre a mala)
Começa a ouvir-se piano e uma voz:
em todos os quartos
em todos os cubículos
em todos os pardieiros
uma tragédia e uma comédia
e o mais inesperado dos poemas incompletos
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Jovem (boquiaberto) – Por que raio não posso eu andar sem saber da hora e do mês? (para o público) Causa assim tanta impressão a estes fariseus que eu não me submeta a mais esta regra deste mundo burguês?
Levanta-se para ir ver as fotos sobre as cadeiras e a iluminação apaga-se por completo.
Jovem (enraivecido) – Estão a espiar-me, seus malvados! Então, é isso que a vossa inteligência cósmica tem para me oferecer?!?!
CENA II
Ainda ao escuro, entra a tia da criança de sexo feminino pela direita alta.
Tia (com uma voz grave, colocando a mão no ombro do jovem) – A curiosidade matou o gato!
A luz volta, deixando ver a longa capa roxa que cobre o vestido púrpura da tia, bem como um gato cinzento em cima de cada uma das cadeiras, ocultando as fotos.
Jovem (com desdém) – Então, és tu quem me vai demonstrar como funciona o mundo? Fazer ver o bem e o mal, o lógos do universo, a areté do homem? Enfim, qual é a surpresa que trazes hoje para me incendiar a alma, sua filósofa… da espionagem?
A tia coloca sobre a mesa uma pequena gaiola que estava escondida pela sua capa. No seu interior, está um rato com pêlo branco-sujo.
Tia (com uma pose paternal) – Meu caro irmão, o mundo não é para ser ensinado, mas sim aprendido.