quinta-feira, 8 de maio de 2008

As incessantes baforadas de ar condicionado invadiam o quarto, amenizando o calor que brotava dos raios de Sol que trespassavam as cortinas, iluminando-a. Repousava equidistante das quatros paredes que protegiam a volúpia das suas formas. Um veludo acetinado cobria as partes habitualmente afagadas por pele alheia. As costas largas proporcionavam um tacto religioso a quem as percorresse. Aos braços tinha sido emprestado o amor próprio de uma luxuriante devoção. Os pés desnudados eram testemunhas vivas de tudo quando ela suportara ao longo dos seus treze anos. Serena estava ali exposta aquela cadeira.

quarta-feira, 7 de maio de 2008


Cena IV
Jovem e avó estão no centro do palco, ele com ar revoltado, ela humilde; sentado no chão, o Senhor dos Passos tenta retirar o espinho do pé.

Jovem – Oh avó, tu não estás mesmo aqui, percebes, isto não passa de mais uma ilusão da Igreja para nos fazer acreditar que…

Senhor dos Passos – Ah sim? E este espinho, é a fingir? E o sangue no meu pé, é sumo de tomate? Olhem que esta…

Avó (tenta pousar a mão no ombro do jovem, que se afasta) – Fé e amor, fé e amor!

Jovem – E o que mais? Extracto de caviar para a pele, pó de diamante para as unhas, manteiga de karité para o cabelo e um cartão VISA com «plafond» ilimitado. Tenham paciência! (afasta-se, aos gritos) Marília, onde estás?

Senhor dos Passos – Alguém tem aí um canivete? Ou uma faca de fruta? Também serve.

Avó senta-se no sofá, com ar pesarosamente pio. Jovem continua a procurar Marília. Senhor dos Passos permanece no chão, a escarafunchar no pé. Pela esquerda baixa, grupo de adolescentes e criança regressam, cantado e dançando um tema tipo Andrew Lloyd Webber. Colocam-se no centro do palco. O Senhor dos Passos fita-os abismado. O jovem não lhes presta muita atenção, pois está a falar ao telemóvel.

Grupo –

“Ele é perigoso!
Ele não é quem diz ser!
Loucos, vocês não percebem,
temos muito a perder,
temos de o esmagar,
como o outro antes dele,
ele tem de morrer!
Pelo bem da nação, ele tem de morrer!
Tem de morrer, tem de morrer!!!”

Entra a tia, de punhal em riste e dirige-se ao jovem.

Tia – Tens de morrer! Sabes demasiado, tens de ser eliminado!

Jovem – Mas está tudo louco? Vim aqui porque me iam dizer e mostrar coisas importantes, nada vi, nada me disseram e agora tenho de morrer porque… ARGH!

Tia crava punhal no peito do jovem, que tomba lentamente para o chão. Grupo de jovens e criança pegam na cruz de Senhor dos Passos, deitam o jovem em cima e saem pela direita alta, cantarolando “Ele teve de morrer!”. Avó e tia seguem-nos. Todas as luzes se apagam, à excepção de foco roxo que incide sobre Senhor dos Passos, ainda sentado no chão a escarafunchar no pé.

Senhor dos Passos – Olhe, espere… ei, passe-me aí esse punhal!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Entra o Senhor dos Passos de pé coxinho.

Jovem ai que tudo isto não me pode estar a acontecer
SP tenho sede
Jovem que lamuriento…posso saber o que fazes de pé coxinho e ainda por cima com esse peso todo às costas?
Entrou-me um espinho para o pé
Jovem Um espinho? Espera daqui a uma hora ou duas, que já vais ver o que te vai entrar para as mãos e para os pés…um espinho…não perdes por esperar
SPque dizes?
Jovem É isso mesmo que ouviste – cenas dos próximos capítulos. Leio a tv guia é o que é. A Paixão de Soraya, sexta feira às 22h
SP Sabes quem eu sou?
Jovem Claro. Toda a gente sabe e depois?
SP Então sabes que morri para te salvar
Jovem Vai contar essa a outro…eu não sou a minha avó…ela é que ia nessa cantilena. Morreste porque morreste, as pessoas morrem, sabias?
SP Morri mas ressuscitei
Jovem Ressuscitaste, ressuscitaste…e como é que nunca ninguém mais te viu
SP Fui para junto do Pai
Jovem Menino do papá, isso sim
SP Já vi que não acreditas na minha palavra. Vais ver como a tua avó acredita
Jovem A minha avó já morreu
SP Precisamente

Entra a avó também de pé coxinho

Jovem vó, mas tu não tinhas morrido?
SP E morri
Jovem Então faltaste à morte…chateavas-me por faltar às aulas e também tu afinal…
SP O senhor chamou-me
Jovem E vens assim sem mais nem menos? Quando estavas viva eras surda como uma porta. A gente chamava, chamava e tu nada
Jovem A voz do senhor é amor
JC Escuta jovem, amor.
Jovem Tá bem tá…tou a ouvir essa palavra de cinco em cinco minutos – sim, mor; não mor; vamos ao cinema mor; vamos ao café mor“; tens haxe, mor? Vó também te entrou um espinho para o pé?
Avó Não filho, caí nas escadas. Torci o pé e bati com a cabeça. Foi quando encontrei o senhor que me indicou o caminho da salvação
Jovem Devias andar sempre com o GPS na mala, assim não tinhas que falar com desconhecidos
Entra um grupo de adolescentes, 3 raparigas e um rapaz borbulhoso, em animada conversa, distribuem-se displicentemente no canapé, pelas almofadas e no chão, ignorando o jovem.

Jovem (para o público) – Ah! Não me faltava mais nada!! Aturar miúdos cheios de acne… Digam-me vocês, o que terão estas hormonas aos saltos de essencial para me dizer?! (virando-se para o grupo) Hei! Crianças, não são horas de irem à caminha? Desamparem-me a loja que continuo à espera que chegue a Marília… talvez com ela consiga ter uma conversa decente!

(Os miúdos continuam ignorando o jovem, trocando sussurros e risadas entre si)

Jovem – Oi!! Tão surdos ou fazem-se?! Esta agora…

(Irrompe um toque estridente do relógio de menina colocado no pulso no jovem, os miúdos levantam-se, como autómatos, colocam-se em fila de frente para o público)

Adolescente 1 – Neste dia tão prosaico…

Adolescente 2 – …da alma te queríamos falar…

Adolescente 3 – … dos mundos, de Deus…

Adolescente 4 – … dos elfos, das fadas…

Adolescente 2 – … de magos e fariseus…

Adolescente 4 – … da sombra, da luz…

Adolescente 1 – … da morte, do nascer…

Adolescente 3 – … se tu ao menos quisesses saber!…

(Ouve-se novamente o mesmo toque, os adolescentes parecem acordar, riem-se e saem pela esquerda baixa, deixando o jovem só, sentado no escadote tombado, com um foco de luz azul incidindo sobre si)

Jovem (começa por gritar) – Estão loucos, todos loucos, juro-vos…
Desculpem lá, vocês, estarem aqui a assistir a esta cena, a perderem o vosso tempo… eu ainda é como o outro… não tenho verdadeiramente nada de importante para fazer… é que eu… (desolado) eu queria mesmo saber!...
Cena III

As luzes baixam. Deixa de se ver a tia…um brilho rasante ao solo de cor vermelha ilumina agora o andar manco de dois pés não se desvendando o corpo. Um foco branco cega parcialmente a visão do jovem que se encontra no centro do palco, fortemente iluminado, e que compõe a roupa.

Jovem - Uma menina, Um manco…Que me queres dizer?….Queres que eu descubra o quê se nem sequer me deixas ver ou falar-te?

Os pés param e de mesmo ponto do cenário ouve-se o cantar dá letra de uma música cujos acordes são dedilhado numa viola.

Cantante - A musica não a conheces tu. Mas a letra revela-se-te incrivelmente fácil com se desde sempre a tivesses sabido de cor. A tua mãe não a cantou e tu nunca a ouviste no berço. Sim...é Madonna e é o do último ábum, gostas?

Jovem - Mas eu nem gosto de Madonna?!

Cantante - ehhhh....(e continua a cantar)

Jovem - Fazes-me ouvir uma música que eu canto sem conhecer. Mas que não esqueço. E não volto a repetir porque não gosto….Acompanha-me alguém que não conheço e afinamos os dois………Procuro-a mas mesmo manca esta pessoa, que ainda não percebi se mulher ou homem…..passeia-se pela sala escapando as minhas investidas……Ai carago!!! (bate com o joelho no escadote e tomba-o para o centro do palco, de onde tinha saído indo atrás dos pés - percurso livre).

Jovem (grita) - Não entendo, não vejo, não falo, nem percebo o que estou aqui a fazer.
Chamaram-me e põe-se a fazer entrar pessoas que não conheço….porque é que a Marília me chamou aqui…..?!

(Jovem confirma a mensagem antes recebida no telemóvel)

Jovem - Que raio.... Parece que estou à espera do médico mas numa casa ....de alguém que se mudou. A Marília tinha-se mudado……(dirige-se para a porta de cima, abre-a e espreita) …(chama gritando) Marília!!! (Fecha a porta.)

(A mulher cala-se. Ouve-se na direcção da porta de baixo um pequeno grupo distante, que se aproxima .)

Jovem - Ihhh, tamanha ingresia p'ra lá vem! 'Tou feito!

domingo, 4 de maio de 2008

O jovem vira as costas e deita-se na mesa de jantar, a falar com as cadeiras e os gatos, como se a tia não estivesse lá.

Jovem – Odeio-Te. Sem pontos, nem vírgulas, nem qualquer tipo de pausas. E desafio-Te! Vem cá, e diz-me olhos nos olhos que existes, planando omnipresente sobre o mais imperfeito dos mundos… Explica-me porque És Cruel. Explica-me! Queres brincar ao gato e ao rato? Queres???? Com mulheres cinza e púrpura? EU NÃO SOU UMA MARIONETE dos teus caprichos! Sou o dono da minha vida!

Tia – Cucu! Acho que ainda não percebeste bem, jovem…. Levanta a camisa por favor…Não tenhas pressa… mas levanta-a, por favor. (sorri)

O jovem fica algo perplexo, mas obedece e começa a levantar a camisa.

Tia – Já tás a ver o umbigo???? Tás? (o jovem anui com a cabeça) Boa!... Agora passa essa fase por favor… (fala lentamente, como se soletrasse) o teu umbigo não é o centro do mundo…muito menos os teus dramas existenciais… Lamento. Agora vamos avançar para as coisas práticas, please? (Abre a mala)

Começa a ouvir-se piano e uma voz:

em todos os quartos

em todos os cubículos

em todos os pardieiros

uma tragédia e uma comédia

e o mais inesperado dos poemas incompletos

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Um soturno miar irrompe em fundo. A criança de sexo feminino desvela os seus dentes num sorriso angelical e coloca um relógio no pulso de menina do jovem de sexo masculino. De seguida, expõe uma foto sobre cada uma das cadeiras. Os seus longos cabelos acinzentados saem pela direita alta sem dizer uma palavra.

Jovem (boquiaberto) – Por que raio não posso eu andar sem saber da hora e do mês? (para o público) Causa assim tanta impressão a estes fariseus que eu não me submeta a mais esta regra deste mundo burguês?

Levanta-se para ir ver as fotos sobre as cadeiras e a iluminação apaga-se por completo.

Jovem (enraivecido) – Estão a espiar-me, seus malvados! Então, é isso que a vossa inteligência cósmica tem para me oferecer?!?!

CENA II

Ainda ao escuro, entra a tia da criança de sexo feminino pela direita alta.

Tia (com uma voz grave, colocando a mão no ombro do jovem) – A curiosidade matou o gato!

A luz volta, deixando ver a longa capa roxa que cobre o vestido púrpura da tia, bem como um gato cinzento em cima de cada uma das cadeiras, ocultando as fotos.

Jovem (com desdém) – Então, és tu quem me vai demonstrar como funciona o mundo? Fazer ver o bem e o mal, o lógos do universo, a areté do homem? Enfim, qual é a surpresa que trazes hoje para me incendiar a alma, sua filósofa… da espionagem?

A tia coloca sobre a mesa uma pequena gaiola que estava escondida pela sua capa. No seu interior, está um rato com pêlo branco-sujo.

Tia (com uma pose paternal) – Meu caro irmão, o mundo não é para ser ensinado, mas sim aprendido.