sábado, 15 de março de 2008

- Então pretende prestar declarações? Tem a certeza?
- Sim, Sr. Dr., vou-lhe contar toda a verdade.
- Então, conte lá tudo o que se relaciona com a morte do Sr. Silva…
- Pois, Sr. Dr., vou-lhe contar tudo desde o princípio: eu casei há quase 20 anos… foi muito bonito, um casamento por amor, o Chico era o melhor mecânico da freguesia, tínhamos uma casa muito jeitosa…
- D. Laura, vamos lá a ver, o princípio do seu casamento não me parece muito relevante para o crime em questão…
- Pelo contrário, Sr. Dr., foi quando tudo começou, foi na altura do meu casamento. Como eu ia a dizer, tínhamos uma casa muito jeitosa, e eu nem tinha de trabalhar fora, e foi aí que começaram as invejas e as maledicências. Passados uns 6 meses de estarmos casados começaram a dizer que ele andava metido com a Júlia da mercearia. É claro que eu nunca acreditei mas, à cautela, tive uma conversa séria com a Júlia e depois… quer-se dizer, não se pode dizer que a culpa seja minha se ela se mudou sem se despedir de ninguém e nunca mais deu notícias, não acha? Enfim… Tivemos mais uns tempos sem problemas mas voltaram as conversas da vizinhança, desta segunda vez os boatos foram com a Maria, viúva do Aníbal. Fui ter outra conversa privada, séria, de mulher para mulher, falei-lhe mesmo ao coração, mas ela não queria mudar para longe… A coisa demorou mais uns tempos para se resolver, primeiro houve uns miúdos que lhe partiram os vidros das janelas, por acaso até lhe digo que os coriscos nunca foram apanhados, depois o cão dela que deve de ter comido qualquer coisa estragada e acabou por se finar, coitadinho, com algum sofrimento até…
- Mas a senhora está a dizer-me que obrigou essas senhoras a mudarem de casa? Que até matou um cão?
- Desculpe Sr. Dr., que eu não disse nada disso! Se vai fazer leituras erradas das minhas conversas ficamos já por aqui e não o ajudo a esclarecer a morte do homem!

sexta-feira, 14 de março de 2008

- Queres que mude de canal? – Perguntou o marido, vendo que ela se mantinha em silêncio.
- Faz como quiseres. Acabei por dormir, perdi o fio à meada, vou para a cama.

Afastou a manta e esfregou o rosto, tentando arranjar coragem para o trajecto até ao quarto. Era uma pena que o sono se impusesse tão categoricamente. O início do filme parecia bastante interessante. Identificara-se desde os primeiros minutos com aquela Luísa desaparecida, uma mulher perdida, heroína frágil fora do seu tempo, atraída pelas sendas subterrâneas da existência. Teria sido engraçado seguir de perto as pistas que os amigos juntavam e a forma como iam fazendo crescer aquela protagonista ausente. Lembrou-se, por momentos, das histórias de Enid Blyton e de como a emoção do mistério a acompanhara durante toda a infância. Tinha chegado a ver, já muito sonolenta, o desaparecimento daquele homem sem nome, que podava os hibiscos, participado à polícia pela mulher num telefonema muito caricato. Lamentava imenso não ter conseguido manter-se acordada. Havia de tentar apanhá-lo noutro canal, queria muito ver este filme até ao fim, descobrir de que vitória fugiria aquela mulher que sorria e olhava com uma delicadeza estóica, e ouvia sinos de vento para tentar pôr alguma ordem nas coisas.

- Chegaste a perceber se o homem desaparecido ia ter com ela?
- Com ela quem? Ah, com a da carta? Não, não vi, pus-me a ler o jornal e a fazer as palavras cruzadas.

Deram um beijo distraído. Ela encaminhou-se para o quarto, despiu-se às escuras e enfiou-se depressa debaixo da roupa. Entretanto lembrou-se, quando estava já prestes a adormecer, que não activara o despertador. Ligou o candeeiro e pegou no relógio com um gesto mecânico. Foi quando reparou numa caixa, bem no centro da mesinha de cabeceira, que nunca antes vira em casa.

quarta-feira, 12 de março de 2008


O autocarro esgueirou-se bamboleante pelo trôpego caminho .

“Quando os autocarros se vão, só resta um cheiro a pneus e gasolina, uma nuvem de fumo e solidão. Foi também para isso que vim. Para me despedir por uma última vez dum autocarro. Quando era pequena gostava de ver os autocarros a partir. Ficava a olhar para aquele corpo de paquiderme a encolher até parecer uma formiga e dizia-lhe adeus até se sumir na próxima curva.
Agora quero ver a vida deixar-me e sumir-se na curva da morte. Sinto um nó na garganta, uma angústia indizível e uma voz surda que me grita: apanha-a, apanha-a. É tarde de mais, mas não lamento. Sei exactamente o que estou a fazer aqui.”



- Policia?… Queria participar o desaparecimento do meu marido…Se desapareceu? Foi o que eu disse, não foi? Que-ro par-ti-ci-par o de-sa…pois pergunte mas não faça perguntas estúpidas…quando desapareceu não sei mas não veio jantar…como não é razão para chamar a policia? O senhor nem me deixa falar…ele já não vem jantar há três dias …nem jantar, nem almoçar, nem podar os hibiscos…pobres hibiscos que estão a ficar todos esgrouviados…há quanto tempo já lhe andava a pedir para me tratar dos hibiscos…



Luísa olhou em volta. Estava tudo exactamente como se lembrava. Há mais de vinte anos não punha ali os pés. Provavelmente mais ninguém pusera ali os pés. Só o velho marco geodésico estava mais velho, atormentado pelas intempéries. Havia ali uma encruzilhada perfeita. Ela plantou-se ao centro, pousou a caixa no chão poeirento. Fechou os olhos. Esteve assim uns minutos. Talvez rezasse.

“ Já não rezo há muitos anos, não como me ensinaram na catequese. Fico assim a não pensar e não pensando inclino-me respeitosamente perante o mistério da criação.”

Levou as mãos à parte de trás do pescoço e quando as devolveu à frente, trazia um fiozinho de ouro que segurava uma medalha minúscula. Nossa Senhora da Paz Lembrança da primeira comunhão que colocou também no chão. À sua volta, nos campos que ladeavam os quatro caminhos, pernilongas plantas infestantes agitavam-se em espasmos, excêntrica dança do ventre que o vento se comprazia em acompanhar com uma triste melodia de dois desajeitados tons.
Depois tirou os óculos. E quis repetir uma última vez um gesto maquinal que praticava há anos.. Bafejou as lentes e limpou-as com a ponta do camiseiro. A seguir esticou os braços com os óculos nas pontas dos dedos para averiguar da eficácia da limpeza. E foi então que, através das lentes graduadas até à exaustão, o viu.

terça-feira, 11 de março de 2008




Entreolhámo-nos, um riso nervoso a estalar o nosso pasmo.
Raul foi o mais rápido: agarrou no casaco, gaguejou umas indicações e saiu. Maria e Pedro agarraram-se aos telemóveis e eu pude, finalmente, contemplar os meus pensamentos, enquanto as luzes da cidade riscavam a noite.
Imaginava Luísa, algures na cidade, a fechar uma mala com um gesto suave mas resoluto. Imaginava as mãos finas de Luísa a cumprirem um ritual mundano, como pentear o cabelo ou endireitar o casaco. Mas mais do que isto tudo, mais do que imaginar gestos, eu desejava-os. Queria que fossem verdade, tal como queria que não chegássemos a tempo. Pedi ao deus que ouve as nossas preces e as encaminha para os nossos sonhos que Luísa partisse, apenas isso, fosse para onde fosse. Creio que já há muitos anos o sabia, desde que lhe lera aquela faceta de heroína estóica na delicadeza do sorriso, na densidade do olhar; e as palavras de Luísa?, sempre tão lúcidas e belas…
Peguei novamente na carta, abanei-a ligeiramente, como se esperasse que mais algum significado escondido se soltasse do traçado das letras. Fala, fala comigo, Luísa, eu prometo compreender. Eu prometo silêncio.
Maria e Pedro, já livres dos telemóveis, avançaram para mim, uma dúvida a marcar-lhes o rosto.
— Que tens, Sara? — perguntou Pedro — Lembraste-te de mais alguma coisa?

segunda-feira, 10 de março de 2008

Não era seu o gosto pela música da moda, pelas roupas da moda, pelos penteados, objectos e palavras da moda. Discreta e sensível, mantivera-se intacta na limpidez de um passado anterior a todas as perdas que tinha sofrido, na lealdade às palavras dos diálogos antigos – diálogos travados com gente morta, mas para sempre vivendo na respiração literária com que oxigenava os dias tristes, passados no escritório da fábrica a administrar os primeiros-socorros da contabilidade exacta às feridas tecnológicas da indústria farmacêutica. Ainda era fiel ao velho porta-chaves de madeira com iniciais gravadas que o avô lhe fizera num dia grande de Novembro (como tinham sido todos os dias da sua infância), com o qual mostrara ao mundo tímido da algibeira do casaco, aos 12 anos, o direito de abrir a porta de casa. Vinte anos depois, a Luísa crescida avançava pelos dias pequeninos do seu presente com a mesma grandeza de sempre esbarrando no espartilho de quatro paredes vazias de emoção.
Reli a carta novamente: “rimas”, “madrigais”, “sinos” e “velas” – palavras de outrora, tentando, com a força dos gigantes do passado, vencer a “renúncia”, a “desistência”. Um curso em Letras e um trabalho em números – a esquizofrenia da vida adulta dilacerando a sensibilidade poética de uma rapariga nascida para ideias longas e algarismos curtos. As “horas erradas” e o “cheiro da fábrica” a justificar uma despedida enigmática… Foi então que vi.
Sempre ali tinha estado, mas só agora, na mecânica dos olhares repetidos, dei pela citação. Ela camuflara-a, eliminando-lhe as aspas. Deixava-nos um rasto subtil para que a encontrássemos? Apagara a autoria com que intenção? Sentei-me com estrondo na cadeira que tinha deixado vaga há poucos minutos apenas e disse, com a gravidade de quem desvenda um mistério.
– Vocês já leram bem as últimas palavras dela? “Estive a um passo de conseguir. Mas perdi, felizmente, perdi.” Não vos diz nada?
Olharam-me em silêncio por momentos. O Raul foi o primeiro a falar.
– Como fomos estúpidos! Alguém sabe onde ela guarda a caixa?

domingo, 9 de março de 2008


“Soa-me a despedida, embora não perceba se de nós, se de si própria...” alvitrou Maria com os olhos fixos na chávena. E assim tirou a patilha da granada que retinha o medo, invadiu a sala e me tirava o ar. Avancei para a janela, o alumínio guinchou, queixoso de gasto e demorei-me a absorver a noite, com o frio de Dezembro a encher-me os pulmões e a expelir o pânico.
Atrás de mim, as vozes nervosas dos rapazes, estabeleciam um plano de acção. O Raul ligaria de manhã cedo para o escritório. “Sara, tu falas com a D. Constância”. Sem me voltar abanei a cabeça. Ela estava muito aflita, não sabia de nada, a Luisa despediu-se com doçura e pediu-lhe que não se preocupasse. Sempre quis poupar a mãe, aquela filha. Ocultava-lhe a angústia crescente, a alma que se perdia aos poucos, naquela coisa física, visceral, que a levava a refugiar-se de um mundo que lhe provocava vómitos e tonturas. Ela bem tentava.
Conhecemo-nos todos de crianças, ali no bairro. Lembro-me de ter lido as “Mulherzinhas” e de a ter visto a ela, heroína frágil, em vestido de época e moral estóica. À medida que crescíamos percebemos ambas que era mesmo isso, que se sentia uma estranha intrusa num tempo que não era o seu.

sábado, 8 de março de 2008

Quando acabei de ler, fez-se silêncio na sala. Quase tão assustador como receber uma carta destas é relê-la, em voz alta, deixar palavras que não são nossas soltas, a ganharem uma vida própria.
Reunirmo-nos não tinha sido difícil, bastou enviar uma mensagem para o grupo de sempre (“se recebeste uma carta da Luísa, trá-la para reunião hoje na minha casa às 21h”). A minha ideia era conseguirmos, todos juntos, descobrir se tínhamos recebido a mesma carta e perceber o que se tinha passado, apesar de não ter a maneira de saber se mais alguém teria recebido a carta. Agora estávamos todos sem saber que sentido tirar do seu conteúdo.
A Maria mexia o chá, o Raul brincava com o telemóvel, e o Pedro tomou a iniciativa: “fartei-me de lhe telefonar e deixar mensagens sem qualquer resposta. Posto isto, acho que ela se fartou, mandou a treta do emprego e da vidinha monótona à vida e foi de férias para o Brasil. Alguém tem uma ideia melhor?”.